Ana Luiza Cosme
Bióloga, mestre em Ciências Aplicadas à Medicina, educadora e escritora. Apaixonada pelo projetos pelos projetos da plataforma 123 Ecos.
Atualizado em: 25/10/2026
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A história da geologia é a história de como os cientistas descobriram que a Terra é muito antiga, que tem camadas por dentro e que os continentes se movem. Por muito tempo, acreditou-se que o planeta tinha poucos milhares de anos e que as montanhas e os oceanos sempre estiveram onde estão. Em pouco mais de dois séculos, a observação das rochas, dos terremotos e do fundo do mar mudou essa visão por completo.
A linha do tempo
| Ano | Quem | O que descobriu |
|---|---|---|
| 1596 | Abraham Ortelius | Notou que as costas da América e da África parecem se encaixar |
| 1788 | James Hutton | A Terra é muito antiga: o “tempo profundo” |
| 1830–1833 | Charles Lyell | As paisagens se explicam por processos lentos que ainda acontecem hoje |
| 1909 | Andrija Mohorovičić | A Terra tem uma crosta fina sobre um manto mais denso |
| 1912 | Alfred Wegener | Os continentes já estiveram juntos e se moveram: a deriva continental |
| 1936 | Inge Lehmann | O núcleo da Terra tem uma parte interna sólida |
| Anos 1950 e 1960 | Várias equipes | O fundo do mar se expande a partir das dorsais oceânicas |
| 1968 | Navio Glomar Challenger | Amostras do fundo do Atlântico confirmam a expansão |
O tempo profundo: Hutton e Lyell
O escocês James Hutton (1726–1797) é considerado o pai da geologia moderna. Segundo a Sociedade Geológica de Edimburgo, ele apresentou a sua Teoria da Terra em 1785 e a publicou em 1788. No mesmo ano, em Siccar Point, na costa da Escócia, viu camadas de rocha dobradas e gastas cobertas por outras, retas. Para que aquilo acontecesse, teria sido preciso um tempo enorme. Hutton terminou o livro com uma frase famosa: “Não encontramos vestígio de um começo, nem perspectiva de um fim”.
Essa ideia, o tempo profundo, contrariava a crença de que a Terra fora criada em 4004 a.C. Hoje se sabe que o planeta tem cerca de 4,5 bilhões de anos.
O também escocês Charles Lyell levou a ideia adiante. No livro Princípios de geologia, publicado em três volumes entre 1830 e 1833, ele defendeu que as paisagens se formam por processos lentos, como a erosão e o levantamento do terreno, que agem por períodos muito longos, e não por grandes catástrofes, segundo a Linda Hall Library. Charles Darwin levou o primeiro volume na viagem do navio Beagle.
Olhando para dentro da Terra
Ninguém consegue cavar até o centro da Terra. O buraco mais fundo já feito, o poço superprofundo de Kola, na Rússia, chegou a cerca de 12.262 metros depois de cerca de 20 anos de perfuração, segundo a Scientific American. É menos de um quinhentos avos do caminho até o centro, que fica a 6.371 km, segundo a NASA.
O interior foi descoberto pelos terremotos. As ondas que eles produzem mudam de velocidade e de direção quando passam de um material para outro, e os sismógrafos registram essas mudanças:
- A base da crosta (1909). Estudando um terremoto nos Bálcãs, o croata Andrija Mohorovičić notou que parte das ondas chegava antes, por ter viajado mais fundo, numa rocha mais densa. Concluiu que existe um limite entre a crosta e o manto, a cerca de 50 km de profundidade naquela região, segundo a Linda Hall Library. Esse limite se chama descontinuidade de Mohorovičić, ou Moho.
- O núcleo interno (1936). A sismóloga dinamarquesa Inge Lehmann estudou um grande terremoto de 1929 perto da Nova Zelândia. Algumas ondas que deveriam ter sido desviadas pelo núcleo apareceram onde não deviam. Ela concluiu que tinham batido numa fronteira dentro do núcleo e propôs que há um núcleo interno sólido dentro de um núcleo externo líquido, segundo o Museu Americano de História Natural. A ideia foi confirmada em 1970, com sismógrafos mais sensíveis.
O que se sabe hoje sobre cada camada está em Camadas da Terra.
Os continentes se movem: Wegener
Já em 1596, o cartógrafo Abraham Ortelius tinha notado que as costas da América e da Europa e da África pareciam se encaixar, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS). Em 1912, o meteorologista alemão Alfred Wegener, então com 32 anos, propôs que os continentes já tinham formado um só bloco, a Pangeia, que se partiu há cerca de 200 milhões de anos. Ele chamou a ideia de deriva continental.
A proposta foi rejeitada pela maioria dos geólogos da época. Wegener não conseguia explicar que força moveria massas tão grandes de rocha, e o geofísico Harold Jeffreys argumentou que um continente não poderia avançar pelo fundo do oceano sem se despedaçar. Wegener morreu em 1930 sem ver a sua ideia aceita.
A prova veio do fundo do mar
Depois da Segunda Guerra Mundial, o fundo dos oceanos foi mapeado com sonar. Segundo o USGS, nos anos 1950 apareceu uma cadeia de montanhas submarinas que dá a volta ao planeta, a dorsal meso-oceânica, com mais de 50 mil km de comprimento. As rochas do fundo do mar também mostravam faixas magnéticas alternadas, como as listras de uma zebra.
A explicação, formulada no começo dos anos 1960, foi a expansão do fundo oceânico: nas dorsais nasce crosta nova, que se afasta para os lados como numa esteira, e nas fossas oceânicas a crosta velha mergulha de volta no manto. O termo foi criado por Robert Dietz, e o modelo da esteira foi proposto por Harry Hess. Em 1968, o navio Glomar Challenger perfurou o fundo do Atlântico e mostrou que as rochas ficam mais velhas à medida que se afastam da dorsal. Para o USGS, foi a prova decisiva.
Juntando a deriva de Wegener e a expansão do fundo do mar, nasceu a teoria da tectônica de placas, hoje aceita pela comunidade científica. Veja Placas tectônicas e Litosfera.
A crosta mais antiga
Em 2001, Simon Wilde e colegas publicaram na revista Nature a idade de um grão de zircão encontrado em Jack Hills, na Austrália: cerca de 4,4 bilhões de anos. A química do grão indica que ele se formou de rochas que tiveram contato com água líquida. É o indício mais antigo de que já havia crosta continental e oceanos na Terra.
O debate do Antropoceno
Muitos cientistas usam a palavra Antropoceno para o período em que a ação humana passou a mudar o planeta. Houve uma proposta para torná-lo uma época oficial da escala do tempo geológico. Em março de 2024, a União Internacional de Ciências Geológicas (IUGS) confirmou a rejeição da proposta. A própria IUGS afirma, porém, que o termo continuará a ser usado por cientistas e pelo público como uma descrição valiosa do impacto humano sobre a Terra.
Resumo: principais perguntas e respostas
O escocês James Hutton (1726–1797), que publicou a Teoria da Terra em 1788 e propôs que a Terra é muito antiga, a ideia do tempo profundo.
O meteorologista alemão Alfred Wegener, em 1912. Ele defendeu que os continentes formavam um só bloco, a Pangeia.
Porque ele não conseguia explicar que força moveria os continentes. A explicação só veio nos anos 1960, com a expansão do fundo oceânico.
Pelas ondas dos terremotos, que mudam de velocidade ao passar de um material para outro. Assim Mohorovičić achou a base da crosta, em 1909, e Inge Lehmann, o núcleo interno, em 1936.
Não. Em 2024, a União Internacional de Ciências Geológicas confirmou a rejeição da proposta, mas o termo continua em uso para descrever o impacto humano.
Fontes
- Edinburgh Geological Society. James Hutton.
- Linda Hall Library. Scientist of the Day: Charles Lyell.
- Linda Hall Library. Scientist of the Day: Andrija Mohorovičić.
- American Museum of Natural History. Inge Lehmann: discoverer of the Earth’s inner core.
- USGS. Historical perspective. This Dynamic Earth.
- USGS. Developing the theory. This Dynamic Earth.
- NASA. Earth fact sheet. NSSDC.
- Scientific American. How deep is the deepest hole in the world?
- Wilde, S. A. e colegas. Evidence from detrital zircons for the existence of continental crust and oceans on the Earth 4.4 Gyr ago. Nature, 409, p. 175–178, 2001.
- International Union of Geological Sciences. Carta sobre a decisão do Antropoceno. 20 mar. 2024.
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