Ana Luiza Cosme
Bióloga, mestre em Ciências Aplicadas à Medicina, educadora e escritora. Apaixonada pelo projetos pelos projetos da plataforma 123 Ecos.
Atualizado em: 24/10/2026
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O bioma Pantanal é uma das maiores planícies alagáveis do mundo. No Brasil, ocupa 150.988 km², ou 1,8% do território, segundo o IBGE, nos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. É o menor bioma brasileiro, e uma parte menor dele fica na Bolívia e no Paraguai.
Sua marca é o pulso das águas: todo ano, a planície enche na época das chuvas e seca nos meses seguintes. Esse vaivém decide onde os animais se alimentam, quando os peixes se reproduzem e que plantas crescem em cada lugar.
Como funciona a cheia e a seca
O Pantanal fica numa grande baixada, cercada por planaltos e serras, na bacia do Alto Paraguai. A chuva cai sobretudo de outubro a março nos planaltos ao redor, e a água desce pelos rios Paraguai, Cuiabá, São Lourenço, Taquari, Aquidauana e Miranda até a planície.
Como o terreno é quase plano, a água escoa devagar. Em anos de cheia normal, ela cobre grande parte da planície durante meses e leva até o sul do Pantanal a água que caiu ao norte. Na seca, de abril a setembro, a água volta para os rios e as baías, e os animais se concentram em volta das lagoas que restam.
As cheias trazem nutrientes que adubam os campos; as secas abrem espaço para os capins e para o gado. Por isso, cheia e seca não são problemas: são o que mantém o Pantanal vivo.
Clima
O clima é tropical, quente, com verão chuvoso e inverno seco. As temperaturas médias ficam em geral entre 22 °C e 27 °C, mas no verão passam com frequência dos 35 °C, e no inverno frentes frias podem baixar a temperatura a menos de 10 °C.
Sub-regiões
Os pesquisadores da Embrapa dividem o Pantanal brasileiro em 11 sub-regiões, que alagam de forma diferente: Cáceres, Poconé, Barão de Melgaço, Paraguai, Paiaguás, Nhecolândia, Abobral, Aquidauana, Miranda, Nabileque e Porto Murtinho. A Nhecolândia, por exemplo, é famosa pelas lagoas de água salobra (as salinas) misturadas a lagoas de água doce.
Paisagens
O Pantanal recebe espécies do Cerrado, da Amazônia, da Mata Atlântica e do Chaco, e forma um mosaico de ambientes:
- Campos alagáveis: a paisagem mais extensa, com capins que suportam meses debaixo d’água.
- Cerrados e cerradões: nas partes que alagam pouco.
- Cordilheiras e capões: pequenas elevações, de um a poucos metros, cobertas de mata, que ficam secas na cheia e servem de refúgio para os animais.
- Matas ciliares: ao longo dos rios. Veja Matas ciliares.
- Formações de uma espécie dominante: cambarazais (cambará), carandazais (palmeira carandá), paratudais (paratudo) e canjiqueirais.
- Baías, corixos e vazantes: lagoas, canais e áreas por onde a água passa na cheia.
Os solos, formados por sedimentos trazidos pelos rios, são em geral arenosos e pobres em nutrientes, com áreas mais argilosas perto dos rios.
Fauna e flora
Segundo o WWF-Brasil, o Pantanal tem pelo menos 4.700 espécies registradas, entre elas 3.500 de plantas, 656 de aves, 325 de peixes, 159 de mamíferos, 98 de répteis e 53 de anfíbios. É um dos melhores lugares do mundo para ver animais selvagens, porque a paisagem é aberta.
- Mamíferos: onça-pintada, capivara, ariranha, cervo-do-pantanal, tamanduá-bandeira, anta e lobinho.
- Aves: tuiuiú (ave símbolo do Pantanal), arara-azul-grande, colhereiro, cabeça-seca, garças e o mutum. Veja Projeto Arara Azul.
- Répteis: jacaré-do-pantanal, sucuri-amarela e jabuti.
- Peixes: pintado, dourado, pacu, piraputanga e piranha, que sobem os rios na piracema para se reproduzir.
Importância
- Água: a planície funciona como uma grande esponja, que segura a água das chuvas e a libera aos poucos para o rio Paraguai.
- Biodiversidade: abriga populações grandes de espécies ameaçadas em outros biomas, como a onça-pintada, a ariranha e o cervo-do-pantanal.
- Carbono: solos encharcados e vegetação guardam carbono, que é liberado quando a área seca ou queima. Veja Sumidouros de carbono.
- Economia e cultura: a pecuária em campo nativo existe ali há mais de 200 anos, ao lado da pesca, do turismo de observação e da cultura pantaneira, de indígenas, ribeirinhos e peões.
História da ocupação
Povos indígenas, como os Guató, os Paiaguá, os Guaikuru (Kadiwéu) e os Bororo, vivem na região há milhares de anos. Os espanhóis percorreram o rio Paraguai no século 16, mas a ocupação portuguesa, com vilas e fazendas de gado, começou no século 18, depois da descoberta de ouro em Cuiabá. Muitos povos indígenas foram mortos ou expulsos nesse processo. Veja Comunidades indígenas.
Ameaças
- Fogo: em 2020, os incêndios atingiram cerca de 29% do Pantanal, mais de 4,3 milhões de hectares, segundo o Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais da UFRJ (LASA). Em 2024, queimaram de novo cerca de 2,6 milhões de hectares, 17% do bioma. A maior parte desses incêndios começa por ação humana e se espalha rápido com a seca. Veja Queimadas.
- Seca prolongada: em 2025, a superfície de água do Pantanal ficou 56% abaixo da média de 1985 a 2025, e foi o único bioma com todos os meses abaixo da média, segundo o MapBiomas Água.
- Desmatamento nos planaltos: onde nascem os rios, a troca do cerrado por lavouras aumenta a erosão e enche os rios de areia. O caso mais grave é o do rio Taquari, que mudou de curso e deixou áreas permanentemente alagadas. Veja Assoreamento.
- Troca dos campos nativos por pastagens plantadas e lavouras dentro da planície.
- Obras nos rios: hidrelétricas nos afluentes e o projeto de hidrovia no rio Paraguai podem alterar o pulso de cheia e seca.
Os números de perda de vegetação estão em Insustentabilidade dos biomas brasileiros.
Proteção
- Áreas protegidas: pouco do Pantanal está em unidades de conservação. A principal é o Parque Nacional do Pantanal Matogrossense, que, com três reservas particulares vizinhas (Acurizal, Penha e Dorochê), forma a Área de Conservação do Pantanal, Patrimônio Mundial da UNESCO desde 2000.
- Reserva da Biosfera: reconhecida pela UNESCO em 2000. Veja Reserva da Biosfera do Pantanal.
- Áreas úmidas de importância internacional: o Brasil tem sítios Ramsar no Pantanal, como o próprio parque nacional e a RPPN Sesc Pantanal. Veja Convenção de Ramsar.
- Leis estaduais: Mato Grosso do Sul aprovou em dezembro de 2023 a Lei do Pantanal (Lei 6.160/2023), que limita o desmatamento na planície e proíbe novas lavouras de soja, cana e eucalipto ali.
- Reservas particulares (RPPN): cobrem uma parte importante do que está protegido.
Resumo: principais perguntas e respostas
É uma das maiores planícies alagáveis do mundo. No Brasil, ocupa 150.988 km², 1,8% do território, em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, e se estende pela Bolívia e pelo Paraguai.
Porque fica numa baixada quase plana que recebe a água das chuvas dos planaltos ao redor. A água escoa devagar e cobre grande parte da planície por meses.
Entre outros, a onça-pintada, a capivara, a ariranha, o cervo-do-pantanal, o tuiuiú, a arara-azul-grande, o jacaré-do-pantanal e peixes como o pintado e o pacu.
Uma parte dele. A Área de Conservação do Pantanal, com 187.818 hectares em torno do Parque Nacional do Pantanal Matogrossense, é Patrimônio Mundial da UNESCO desde 2000.
Os incêndios, as secas prolongadas, o desmatamento nos planaltos onde nascem os rios, a troca dos campos nativos e obras que alteram o regime das águas.
Fontes
- IBGE. Biomas e Sistema Costeiro-Marinho do Brasil. 2019.
- WWF-Brasil. Ficha técnica do Pantanal.
- UNESCO. Pantanal Conservation Area.
- Silva, J. S. V.; Abdon, M. M. Delimitação do Pantanal brasileiro e suas sub-regiões. Pesquisa Agropecuária Brasileira, 1998.
- LASA-UFRJ. Notas técnicas sobre área queimada no Pantanal, 2020 e 2024 (reportagens da CNN Brasil e do Campo Grande News).
- MapBiomas Água, dados de 2025, divulgados em 16 jun. 2026, segundo o Portal Amazônia e o Campo Grande News (a peça do MapBiomas não foi encontrada).
- Mato Grosso do Sul. Lei nº 6.160/2023 (Lei do Pantanal).
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