A inteligência dos cetáceos é estudada por comportamentos que se podem medir: se o animal reconhece outros pelo nome, se reconhece a si mesmo, se usa ferramentas e se aprende com os outros comportamentos que não nascem prontos, o que os cientistas chamam de cultura. Os golfinhos e as baleias aparecem em vários desses estudos. Veja Cetáceos e Etologia.
Resumo dos cinco casos #
| Comportamento | Espécie e lugar | Estudo |
|---|---|---|
| Responder ao próprio “nome” | Golfinho-nariz-de-garrafa, Escócia | King e Janik, PNAS, 2013 |
| Reconhecer-se no espelho | Golfinho-nariz-de-garrafa, dois animais testados | Reiss e Marino, PNAS, 2001 |
| Usar ferramenta | Golfinho-nariz-de-garrafa, Shark Bay (Austrália) | Mann e colegas, PLoS ONE, 2008 |
| Canto que muda e se espalha | Baleia-jubarte, Pacífico Sul | Universidade de Queensland, Current Biology, 2011 |
| Pescar em parceria com pessoas | Boto-de-lahille, Laguna (SC) | Cantor e colegas, PNAS, 2023 |
1. Os golfinhos têm “nomes” #
Segundo a Universidade de St Andrews, na Escócia, cada golfinho-nariz-de-garrafa tem um assobio-assinatura, um assobio só seu. No estudo de Stephanie King e Vincent Janik, publicado na revista PNAS em 2013, os pesquisadores tocaram na água versões feitas por computador desses assobios. Cada golfinho selvagem respondeu só à cópia do próprio assobio, e não às de golfinhos conhecidos ou desconhecidos. Os autores chamaram isso de primeiro caso de nomes entre mamíferos além do ser humano.
2. O teste do espelho #
No teste do espelho, o animal recebe uma marca num lugar do corpo que só consegue ver no reflexo. Segundo a Scientific American, Diana Reiss e Lori Marino marcaram dois golfinhos-nariz-de-garrafa com tinta preta (e, para comparar, com uma caneta só com água). Quando marcados, os golfinhos foram mais rápido ao espelho e ficaram mais tempo nele, examinando as marcas, e escolheram a superfície que refletia melhor. Até ali, só os humanos e os grandes macacos tinham passado no teste. O estudo saiu na PNAS em 2001. Os autores viram nisso uma convergência: cérebros muito diferentes, de golfinhos e de primatas, chegando a uma capacidade parecida.
3. Esponjas como ferramenta #
Segundo a National Geographic, em Shark Bay, no oeste da Austrália, alguns golfinhos-nariz-de-garrafa encaixam uma esponja-do-mar no focinho para revirar o fundo atrás de peixes pequenos. Cerca de 1 em cada 9 golfinhos da população faz isso, a maioria fêmeas. Uma análise genética de Janet Mann e colegas (PLoS ONE, 2008) indicou que a técnica passa quase só de mãe para filha e deve ter começado com uma única fêmea.
4. O canto das jubartes: uma cultura que viaja #
Os machos de baleia-jubarte cantam canções feitas de frases repetidas (veja Baleia-jubarte). Segundo a Universidade de Queensland, na Austrália, um estudo de 11 anos publicado na Current Biology em 2011 identificou 11 tipos de canto. Cada um costumava surgir na população do leste da Austrália e se espalhar para o leste, passando pela Nova Caledônia, Tonga, Samoa Americana e Ilhas Cook, até a Polinésia Francesa, em cerca de dois anos. Os pesquisadores descreveram isso como uma mudança cultural repetida, numa escala sem igual entre os animais.
5. Botos e pescadores em Laguna (SC) #
O exemplo brasileiro é um dos mais estudados do mundo. Segundo a Universidade Nacional Australiana (ANU), em Laguna, no litoral de Santa Catarina, botos-de-lahille e pescadores de tarrafa pescam tainha juntos há mais de 140 anos. Os pescadores esperam o sinal dos botos para jogar a rede, e os botos também ajustam o próprio comportamento ao dos pescadores. O estudo de Mauricio Cantor, Damien Farine e Fabio Daura-Jorge (UFSC), publicado na PNAS em 2023, mostrou que:
- pescando juntos, os pescadores pegam peixe com mais frequência e em maior quantidade;
- os botos que participam têm 13% a mais de sobrevivência;
- a parceria pode acabar se a tainha continuar diminuindo ou se os novos pescadores deixarem de aprender a técnica.
O boto-de-lahille (Tursiops gephyreus) está Criticamente em Perigo no Brasil, segundo a lista nacional de espécies ameaçadas atualizada pela Portaria MMA 1.704, de 16 de junho de 2026.
O que ameaça esses comportamentos #
Como dependem do som e de aprender com os outros, os cetáceos são sensíveis ao barulho no mar, que atrapalha a comunicação (veja Poluição sonora no comportamento animal). Segundo o Plano de Ação do ICMBio (2021), as maiores ameaças aos cetáceos do Brasil são a captura acidental em redes de pesca, o barulho e a poluição, as batidas de barcos e a falta de alimento.
Resumo: principais perguntas e respostas #
Por comportamentos que se podem testar: responder ao próprio “nome”, reconhecer-se no espelho, usar ferramentas e aprender com os outros comportamentos que passam de geração em geração.
De certo modo, sim. Cada golfinho-nariz-de-garrafa tem um assobio próprio e responde a cópias dele, segundo um estudo da Universidade de St Andrews (PNAS, 2013).
Sim. Em 2001, dois golfinhos-nariz-de-garrafa marcados com tinta usaram o espelho para examinar as marcas. Antes, só humanos e grandes macacos tinham passado no teste.
Em Shark Bay, na Austrália, alguns usam esponjas no focinho para revirar o fundo. A técnica passa quase só de mãe para filha.
Em Laguna, Santa Catarina, há mais de 140 anos. Um estudo de 2023 mostrou que a parceria aumenta a pesca e a sobrevivência dos botos-de-lahille.
Fontes #
- University of St Andrews. Dolphins respond to individual names. 2013. Sobre King, S. L.; Janik, V. M. PNAS, 2013.
- Scientific American. Dolphin Self-Recognition Mirrors Our Own. Sobre Reiss, D.; Marino, L. PNAS, 2001.
- National Geographic. Sponging dolphins keep it in the family. 15 dez. 2008. Sobre Mann, J. et al. PLoS ONE, 2008.
- University of Queensland. Humpback whales spread songs across Pacific. 15 abr. 2011. Sobre Garland, E. C. et al. Current Biology, 2011.
- Australian National University. Fishing in tandem brings benefits for people and dolphins. 2023. Sobre Cantor, M. et al. PNAS, 2023.
- Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Portaria MMA nº 1.704, de 16 de junho de 2026. Lista Nacional de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção.
- ICMBio. Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Cetáceos Marinhos: sumário executivo. 2021.
