O Relatório Living Planet, chamado em português de Relatório Planeta Vivo, é um estudo publicado pelo WWF que acompanha o estado da vida selvagem no mundo. Ele mostra como as populações de animais vertebrados (mamíferos, aves, peixes, répteis e anfíbios) mudaram desde 1970. É uma das principais referências sobre a perda de biodiversidade, usada por governos, pesquisadores e pela imprensa.
Quem faz e desde quando #
- WWF: uma organização internacional de conservação, que publica o relatório desde 1998.
- Sociedade Zoológica de Londres (ZSL): calcula o índice principal do relatório, o Índice Planeta Vivo.
- Pesquisadores e instituições do mundo todo: fornecem os dados de campo. Os parceiros estão listados no site do índice. No Brasil, os dados do país na edição de 2024 foram organizados com a participação de um pesquisador da Universidade de São Paulo.
O relatório sai a cada dois anos, mais ou menos. A edição mais recente é a de 2026, lançada em 8 de outubro de 2026.
Como funciona o Índice Planeta Vivo #
O índice reúne contagens de populações de animais feitas por pesquisadores ao longo de décadas. Uma população é o grupo de animais de uma espécie que vive num lugar, como os botos de um trecho de rio ou as onças de um parque.
Para cada população, o índice calcula quanto ela cresceu ou diminuiu desde 1970. Depois, faz a média de todas essas variações. A edição de 2026 acompanhou 35.803 populações de 5.790 espécies.
O que a edição de 2026 mostrou #
Segundo o WWF, entre 1970 e 2022 o tamanho médio das populações acompanhadas caiu 73%. É o mesmo número da edição de 2024, que ia até 2020. A edição de 2022 falava em 69%.
Repetir os 73% não quer dizer que nada mudou. A cada edição entram populações novas e as séries antigas são recalculadas, por isso os números de uma edição não se comparam diretamente com os da outra, como explica o Our World in Data.
Por região:
| Região | Queda média |
|---|---|
| América Latina e Caribe | 95% |
| África | 80% |
| Ásia e Pacífico | 49% |
| América do Norte | 28% |
| Europa e Ásia Central | 23% |

Por tipo de ambiente:
- água doce: 85%;
- terra: 69%;
- mar: 59%, segundo o WWF-UK (o texto do WWF-Brasil traz 56%).
Principais ameaças, da mais citada para a menos citada: perda e degradação de habitat, exploração excessiva (caça e pesca além do limite), mudanças climáticas, poluição, espécies invasoras e doenças. Segundo o WWF, a perda de habitat vem principalmente da expansão da agropecuária.
Como ler o número de 73% #
Esse é o ponto mais mal entendido do relatório. O próprio WWF esclarece:
- os 73% não significam que morreram 73% dos animais do planeta;
- não significam que 73% das populações desapareceram;
- significam que, em média, as populações acompanhadas ficaram 73% menores.
Na prática, na edição de 2026, 50% das populações acompanhadas diminuíram, 43% aumentaram e 7% ficaram estáveis, segundo o Our World in Data. As que caíram muito puxam a média para baixo, e o resultado da conta é uma queda média de 73%.
Também é preciso lembrar que o índice só inclui populações com contagens repetidas ao longo do tempo. Regiões e grupos de animais mais estudados têm mais peso nos dados.
Os limites do índice #
O Índice Planeta Vivo é muito usado, mas os próprios cientistas apontam cuidados na leitura:
- Ele mede populações, e não espécies. Uma espécie pode ter populações que caem num lugar e crescem em outro.
- Depende de onde há dados. Europa e América do Norte têm contagens mais antigas e frequentes. Em boa parte dos trópicos, onde vive a maior variedade de espécies, os dados são mais escassos.
- Só inclui vertebrados. Insetos, plantas e fungos, que são a maior parte das espécies, ficam de fora.
- Uma média esconde casos diferentes. Algumas populações caem muito e puxam a média para baixo, enquanto outras se recuperam, como as de espécies protegidas por leis e por áreas de conservação.
Por isso, o relatório é lido junto com outras avaliações, como a do IPBES, o painel científico das Nações Unidas sobre biodiversidade, que em 2019 estimou em cerca de 1 milhão o número de espécies ameaçadas de extinção. Veja Desequilíbrio ecológico.
O que o relatório diz da Amazônia #
A edição de 2026 cita a perda da capacidade da Amazônia de absorver carbono como exemplo de ponto de inflexão negativo, segundo o WWF-Brasil. O resumo executivo da edição de 2024 já citava a Amazônia entre os ecossistemas que podem chegar a um ponto de não retorno:
- esse ponto pode ser atingido se 20% a 25% da floresta for destruída;
- cerca de 14% a 17% da Amazônia já foram desmatados;
- o desmatamento e as mudanças climáticas estão reduzindo as chuvas, e a floresta pode chegar a condições em que não se mantém como floresta tropical.
Veja O que acontece quando um ecossistema passa do ponto de não retorno?
As metas para 2030 #
O relatório liga os resultados às metas que os países assumiram. A principal delas foi aprovada em 2022, na conferência da ONU sobre biodiversidade conhecida como COP 15:
- Marco Global da biodiversidade de Kunming-Montreal: proteger 30% das terras, águas e mares e restaurar 30% das áreas degradadas até 2030. Na edição de 2024, o WWF registrava que as áreas protegidas cobriam 16% da terra e 8% dos oceanos.
- Acordo de Paris: limitar o aquecimento a 1,5 °C. Na edição de 2024, o WWF calculava que os compromissos dos países levavam a quase 3 °C até o fim do século.
Resumo: principais perguntas e respostas #
É um estudo do WWF, publicado desde 1998, que acompanha a variação das populações de animais vertebrados no mundo desde 1970.
O tamanho médio das populações acompanhadas caiu 73% entre 1970 e 2022. Na América Latina e no Caribe, a queda foi de 95%.
Não. É a média das variações das populações acompanhadas, e não a quantidade de animais perdidos.
A perda e a degradação de habitat, ligada principalmente à produção de alimentos, seguida da exploração excessiva.
Na edição de 2024, que ela pode chegar a um ponto de não retorno se 20% a 25% da floresta for destruída. Cerca de 14% a 17% já foram desmatados.
Fontes #
- WWF. Catastrophic 73% decline in the average size of global wildlife populations in just 50 years reveals a ‘system in peril’. 9 out. 2024.
- WWF-Brasil. Relatório Planeta Vivo 2024: resumo executivo. 2024.
- WWF-UK. Living Planet Report 2026 (comunicado de lançamento). 8/10/2026.
- WWF-Brasil, reproduzido por eCycle (CC BY-SA). Relatório aponta queda média de 73% nas populações monitoradas de animais silvestres. 8/10/2026.
- Our World in Data (Hannah Ritchie). A 73% average decline in wildlife populations: an overview of the 2026 Living Planet Index report. 8/10/2026.
- IPBES. Nature’s dangerous decline “unprecedented”; species extinction rates “accelerating”. Comunicado da avaliação global, maio 2019.
- Living Planet Index. Partners.
- WWF. Living Planet Report 1998. Registro na base AGRIS, da FAO.

