Eliane Camara
Bióloga, professora de Ciências, ativista ambiental - acredito em um mundo mais justo e sustentável! Vamos embarcar juntos nessa jornada?
Atualizado em: 25/10/2026
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Ecologia marxista é uma corrente de pensamento que usa as ideias de Karl Marx e Friedrich Engels para analisar a relação entre a sociedade e a natureza. A sua tese central é que as crises ambientais, como a degradação dos solos, a perda de biodiversidade e as mudanças climáticas, estão ligadas ao modo como o capitalismo organiza a produção. É uma corrente com defensores e críticos, dentro e fora do marxismo, e este texto apresenta os dois lados.
De onde vem: Marx e o metabolismo
Marx escreveu no século XIX, antes de existir a ecologia como ciência. Mesmo assim, usou uma ideia que os ecologistas marxistas consideram central: o metabolismo entre os seres humanos e a natureza. Para Marx, o trabalho é a forma como as pessoas trocam matéria e energia com o ambiente, plantando, colhendo, construindo.
Marx leu o químico alemão Justus von Liebig, que estudava os nutrientes do solo. Liebig mostrou que a agricultura da época retirava nutrientes da terra sem devolvê-los. Segundo o sociólogo americano John Bellamy Foster, Marx usou essa ideia para descrever um problema:
- os alimentos saíam do campo e iam para as cidades;
- os nutrientes que eles levavam acabavam como lixo e esgoto nas cidades, poluindo rios;
- o solo do campo ficava cada vez mais pobre.
No terceiro volume de O capital, Marx fala de uma “falha irreparável” no processo de metabolismo social. Foster chamou isso de falha metabólica (em inglês, metabolic rift). Para a corrente, é a primeira descrição de como um sistema econômico pode romper os ciclos naturais. Veja Ciclo de nutrientes.
A retomada no fim do século XX
Durante boa parte do século XX, Marx foi lido como um pensador do crescimento industrial, pouco preocupado com a natureza. A ecologia marxista surgiu, em parte, para contestar essa leitura. Os principais nomes:
- James O’Connor (1930–2017): sociólogo e economista americano, da Universidade da Califórnia em Santa Cruz. Em 1988, no primeiro número da revista Capitalism Nature Socialism, propôs a ideia da segunda contradição do capitalismo: ao degradar a natureza, a saúde dos trabalhadores e as cidades, o capitalismo prejudica as próprias condições de que depende para produzir.
- John Bellamy Foster: professor de sociologia da Universidade do Oregon e editor da revista Monthly Review. No artigo “Marx’s theory of metabolic rift”, de 1999, e no livro A ecologia de Marx, de 2000, defendeu que a preocupação ecológica faz parte do núcleo da obra de Marx.
- Kohei Saito (1987): filósofo japonês, professor da Universidade de Tóquio. Estudou cadernos de anotações de Marx sobre ciências naturais, pouco conhecidos, e propôs que o Marx dos últimos anos caminhava para um “comunismo do decrescimento”. O seu livro O capital no Antropoceno, de 2020, vendeu mais de 500 mil exemplares no Japão, segundo a Los Angeles Review of Books. A versão acadêmica, Marx in the Anthropocene, saiu em 2023.
Conceitos centrais
- Metabolismo social: a troca de matéria e energia entre a sociedade e a natureza.
- Falha metabólica: a ruptura dessa troca, quando a produção tira da natureza mais do que ela repõe ou devolve resíduos que ela não consegue absorver.
- Segunda contradição: o capitalismo destrói as condições naturais e sociais da sua própria produção (O’Connor).
- Deslocamento: segundo Saito, o capitalismo empurra os danos para outros lugares, outras pessoas ou o futuro, em vez de resolvê-los.
As vertentes
A corrente não é uma só. Há pelo menos três linhas, que discordam entre si:
- Ecossocialismo: defende um socialismo que seja, desde o início, ecológico. Um dos seus principais autores é o sociólogo Michael Löwy, nascido em São Paulo em 1938 e diretor de pesquisa emérito do CNRS, na França. Com o americano Joel Kovel, escreveu o Manifesto Ecossocialista Internacional, de 2001. Löwy critica também o modelo soviético, que chama de “produtivismo antiecológico”, segundo entrevista publicada pelo Outras Palavras.
- Comunismo do decrescimento: defendido por Saito. Propõe reduzir a produção e o consumo nos países ricos e organizar a economia em torno das necessidades, e não do lucro. Veja Decrescimento econômico.
- Marxismo de classe e de produção: defendido, por exemplo, pelo geógrafo americano Matt Huber, no livro Climate change as class war (2022). Ele concorda que o capitalismo é o motor da crise, mas critica o decrescimento como uma “política do menos” que afasta os trabalhadores. Propõe a descarbonização da eletricidade sob controle público, segundo a resenha publicada pelo Resilience.
As críticas
Sobre a leitura de Marx
- O sociólogo britânico Ted Benton, em artigo de 1989 na New Left Review, argumentou que Marx e Engels reconheciam que a vida humana depende da natureza, mas deixaram pouco desenvolvida a ideia de limites naturais.
- O sociólogo e historiador americano Jason W. Moore, da Universidade de Binghamton, considera a ideia de falha metabólica útil, mas insuficiente. Em artigo de 2011, critica a separação entre crise da natureza e crise da economia: para ele, “o capitalismo não tem um regime ecológico; ele é um regime ecológico”.
- A resenha do livro de Saito na Los Angeles Review of Books observa que estudiosos marxistas podem discordar da forma como ele caracteriza Marx.
Sobre a experiência histórica
Críticos lembram que países que se declararam socialistas também causaram grandes danos ambientais. O exemplo mais citado é o mar de Aral, na Ásia Central. Segundo a NASA, era o quarto maior lago do mundo até que, nos anos 1960, a União Soviética desviou os rios que o alimentavam para irrigar lavouras, sobretudo de algodão. Em 2014, a parte leste do mar do Sul de Aral secou por completo.
Os ecologistas marxistas respondem que o modelo soviético não seguiu a crítica ecológica de Marx. Löwy, por exemplo, o descreve como uma “caricatura burocrática do socialismo”.
Sobre a solução proposta
Para os defensores do crescimento verde, é possível crescer e reduzir o dano ambiental ao mesmo tempo, com tecnologia, preços e regras. A estratégia da OCDE, de 2011, propõe buscar crescimento e desenvolvimento evitando danos ambientais caros e o uso ineficiente de recursos. Quem defende esse caminho costuma citar a queda dos custos da energia limpa: segundo o IPCC, o custo da energia solar, da energia eólica e das baterias caiu até 85% desde 2010.
Os ecologistas marxistas e os defensores do decrescimento respondem que esse desacoplamento não tem sido rápido nem grande o bastante. O debate continua aberto entre economistas e cientistas. Veja Economia verde.
Resumo: principais perguntas e respostas
É uma corrente de pensamento que usa as ideias de Marx e Engels para analisar a relação entre sociedade e natureza e liga as crises ambientais ao modo de produção capitalista.
É o nome dado por John Bellamy Foster à ideia de Marx de que a produção capitalista rompe a troca de matéria entre a sociedade e a natureza, como no esgotamento dos nutrientes do solo.
James O’Connor, John Bellamy Foster, Kohei Saito e, na linha do ecossocialismo, Michael Löwy e Joel Kovel.
Que Marx deu pouca atenção aos limites naturais (Ted Benton), que países socialistas também causaram grandes danos ambientais, como no mar de Aral, e que o crescimento verde pode reduzir o dano sem mudar o sistema.
Não. Parte da corrente, como Kohei Saito, defende o decrescimento; outra parte, como Matt Huber, critica o decrescimento e defende investir em energia limpa sob controle público.
Fontes
- Foster, J. B. Marx’s theory of metabolic rift: classical foundations for environmental sociology. American Journal of Sociology, 105(2), 1999.
- Foster, J. B. Marx’s ecology: materialism and nature. Monthly Review Press, 2000. Resenha na Monthly Review Press.
- O’Connor, J. Capitalism, nature, socialism: a theoretical introduction. Capitalism Nature Socialism, 1988.
- Perfil de Kohei Saito: phil.COLOGNE.
- Saito, K. Marx in the Anthropocene: towards the idea of degrowth communism. Cambridge University Press, 2023. Resenha: Ahern, A. Red and green make … degrowth. Los Angeles Review of Books, 23 jul. 2023.
- Löwy, M. História, razões e ética do ecossocialismo. Outras Palavras, 10 maio 2017. Biografia: International Viewpoint.
- Foster, J. B. Perfil de autor: ZNetwork.
- Verso Books. In memory of James O’Connor, 1930–2017.
- Maddrey, G. Class struggle or degrowth? Resilience, 16 ago. 2022. Sobre Huber, M. Climate change as class war. Verso, 2022.
- Benton, T. Marxism and natural limits: an ecological critique and reconstruction. New Left Review, I/178, 1989.
- Moore, J. W. Transcending the metabolic rift: a theory of crises in the capitalist world-ecology. Journal of Peasant Studies, 38(1), p. 1–46, 2011.
- NASA Earth Observatory. World of change: shrinking Aral Sea.
- OCDE. Towards green growth? Sobre a Estratégia de crescimento verde de 2011.
- IPCC. Comunicado do relatório do Grupo de Trabalho III. 4 abr. 2022.
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