A perda de serviços ecossistêmicos acontece quando a natureza deixa de entregar, total ou parcialmente, os benefícios de que as pessoas dependem: água limpa, solo fértil, polinização, chuva regular, proteção contra enchentes, alimento e lazer. Esses benefícios são os serviços ecossistêmicos.
A perda raramente é visível de um dia para o outro. Um rio continua correndo, mas com menos água na seca; uma lavoura continua produzindo, mas com menos frutos por falta de polinizadores. Quando a falta aparece, recuperar o serviço costuma ser caro e demorado.
O tamanho do problema #
Três grandes avaliações científicas medem essa perda:
- Avaliação Ecossistêmica do Milênio (ONU, 2005): 15 dos 24 serviços avaliados, cerca de 60%, estavam sendo degradados ou usados além da capacidade de renovação.
- IPBES (2019): 14 das 18 categorias de contribuições da natureza para as pessoas diminuíram desde 1970. As ações humanas já alteraram de forma significativa 75% da superfície terrestre, e mais de 85% das áreas úmidas que existiam em 1700 foram perdidas até 2000. Veja IPBES.
- Costanza e colegas (2014): a mudança no uso da terra causou perdas estimadas entre US$ 4,3 e 20,2 trilhões por ano em serviços ecossistêmicos entre 1997 e 2011.
O que se perde, tipo por tipo #
Serviços de provisão (o que a natureza fornece) #
Alimento, água, madeira, fibras e remédios. Exemplo: em 1992, depois de décadas de pesca excessiva, o Canadá fechou a pesca do bacalhau na costa da Terra Nova. Cerca de 30 mil pessoas perderam o trabalho, e os estoques demoraram décadas para dar sinais de recuperação. Veja Sobrepesca.
Serviços de regulação (o que a natureza controla) #
Chuvas, clima, enchentes, erosão, qualidade do ar e da água e controle de pragas.
- Água: em 2014 e 2015, na crise hídrica de São Paulo, o Sistema Cantareira teve de usar pela primeira vez sua reserva técnica, o chamado volume morto. A falta de chuva foi a causa principal, mas a perda de mata nas nascentes e nas margens dos rios reduz a capacidade das bacias de guardar água. Veja Crise hídrica e alterações climáticas.
- Chuva: a Amazônia devolve à atmosfera a umidade que forma os rios voadores, que levam chuva para o Centro-Oeste e o Sudeste. Menos floresta significa menos umidade no ar.
- Enchentes e deslizamentos: a impermeabilização do solo nas cidades e o desmatamento das encostas fazem a água escorrer em vez de infiltrar.
Serviços de suporte (a base de tudo) #
Formação do solo, ciclo de nutrientes e polinização.
- Polinização: o valor da polinização para a agricultura brasileira foi estimado em R$ 43 bilhões em 2018, segundo a BPBES e a REBIPP. A perda de polinizadores reduz a produção de café, maracujá, maçã e muitos outros alimentos. Veja Como a falta de polinizadores afeta a segurança alimentar.
- Solo: sem cobertura vegetal, a chuva leva embora a camada fértil. Veja Erosão do solo e Perda de fertilidade do solo.
Serviços culturais (o que a natureza oferece ao bem-estar) #
Lazer, turismo, paisagem, saber tradicional e valores espirituais. Quando um recife branqueia ou uma praia é tomada pelo lixo, o turismo cai e as comunidades perdem renda e parte de sua identidade.
Principais causas #
- Desmatamento e mudança no uso da terra: a principal causa, segundo o IPBES. Florestas, campos e áreas úmidas são trocados por pastos, lavouras e cidades.
- Poluição: esgoto, agrotóxicos, metais e plástico comprometem a purificação natural da água e a segurança dos alimentos. Veja Poluição nos ecossistemas.
- Exploração excessiva: pesca, caça e extração de madeira acima da capacidade de reposição.
- Mudanças climáticas: secas, ondas de calor e chuvas extremas mudam o funcionamento dos ecossistemas.
- Espécies invasoras: tomam o lugar das nativas e alteram solo, água e cadeia alimentar.
Consequências para as pessoas #
- Menos segurança alimentar: menos polinização, solo mais pobre e menos peixe.
- Mais desastres: sem manguezais, matas ciliares e vegetação nas encostas, tempestades, enchentes e deslizamentos causam mais danos.
- Mais riscos à saúde: água contaminada, ar poluído e mais contato entre pessoas e animais silvestres. Segundo o IPBES, as mesmas atividades que degradam a natureza aumentam o risco de novas doenças passarem dos animais para as pessoas. Veja A destruição da natureza aumenta o risco de pandemias e Zoonose.
- Mais desigualdade: comunidades pobres, indígenas e tradicionais, que dependem mais diretamente da natureza, são as primeiras a sentir a perda.
Como evitar a perda #
- Conservar o que resta: áreas protegidas, terras indígenas e matas ciliares mantêm os serviços funcionando.
- Restaurar: o reflorestamento com espécies nativas e a recuperação de áreas úmidas devolvem água e solo. Veja Restauro ecológico.
- Produzir de outro jeito: a agroecologia, a rotação de culturas e a proteção das matas perto das lavouras mantêm polinizadores e controladores naturais de pragas.
- Pagar por serviços ambientais: programas que remuneram produtores por proteger nascentes, como os previstos na Política Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais (Lei nº 14.119/2021).
- Consumir com consciência: reduzir o desperdício e escolher produtos de origem conhecida.
Veja também #
- Degradação dos ecossistemas
- O que são serviços ambientais
- Perda de biodiversidade
- Insegurança alimentar
Resumo: principais perguntas e respostas #
É quando a natureza deixa de entregar, total ou parcialmente, benefícios como água limpa, solo fértil, polinização, chuva regular e proteção contra enchentes.
A Avaliação Ecossistêmica do Milênio (2005) concluiu que 15 dos 24 serviços avaliados estavam degradados ou superexplorados. O IPBES (2019) registrou queda em 14 das 18 categorias de contribuições da natureza desde 1970.
Desmatamento e mudança no uso da terra, poluição, exploração excessiva, mudanças climáticas e espécies invasoras.
O colapso do bacalhau no Canadá, que levou ao fechamento da pesca em 1992 e deixou cerca de 30 mil pessoas sem trabalho.
Conservando áreas naturais, restaurando as degradadas, produzindo com práticas sustentáveis e pagando a quem protege nascentes e florestas.
Fontes #
- Millennium Ecosystem Assessment. Ecosystems and Human Well-being: Synthesis. ONU, 2005.
- Heritage Newfoundland and Labrador. Economic Impacts of the Cod Moratorium.
- IPBES. Global Assessment Report on Biodiversity and Ecosystem Services. 2019.
- IPBES. Workshop Report on Biodiversity and Pandemics. 2020.
- Costanza, R. et al. Changes in the global value of ecosystem services. Global Environmental Change, 2014.
- BPBES e REBIPP. Relatório Temático sobre Polinização, Polinizadores e Produção de Alimentos no Brasil. 2019.
- OMS. WHO Scientific advisory group issues report on origins of COVID-19. 27/06/2025.
- Brasil. Lei nº 14.119, de 13 de janeiro de 2021 (Política Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais).
