DNA ambiental, ou eDNA, é o material genético que os seres vivos deixam no ambiente: na água, no solo e até no ar. Peixes, sapos e mamíferos soltam o tempo todo células, muco, fezes e restos de pele. Coletando uma amostra de água de um rio, por exemplo, os cientistas conseguem ler esse DNA e descobrir quais espécies passaram por ali, sem precisar ver nem capturar nenhum animal.
Como funciona #
No caso dos peixes, o processo segue quatro passos:
- coletar e filtrar a água, às vezes só cerca de 100 mililitros;
- misturar o material filtrado a uma solução que impede o DNA de se estragar;
- extrair o DNA no laboratório;
- ler um pequeno trecho do DNA, como um “código de barras”, e comparar com uma biblioteca de referência, que diz a qual espécie cada código pertence.
Para que serve #
- descobrir espécies raras ou difíceis de ver;
- detectar cedo a chegada de espécies invasoras;
- acompanhar se uma espécie ameaçada ainda está num lugar;
- fazer inventários com menos impacto, sem redes nem armadilhas.
Um teste na Amazônia #
Em 2021, uma equipe de pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos, com apoio da FAPESP, testou o método na bacia do rio Javari, na fronteira do Brasil com a Colômbia e o Peru. Com redes e outros métodos tradicionais, eles encontraram 443 espécies de peixes, mais de 60 delas novas para a ciência.
Nos três pontos onde também coletaram água, o resultado foi:
- os métodos tradicionais acharam 201 espécies;
- o DNA ambiental identificou até o nível de espécie só 58, cerca de um quarto.
O motivo é que muitas espécies amazônicas ainda não têm o seu “código de barras” registrado, e muitas nem foram descritas. Mesmo assim, o DNA ambiental conseguiu separar bem os grupos de peixes e distinguir as comunidades dos rios das dos igarapés.
O limite do método #
O DNA ambiental só identifica o que já está nas bibliotecas de referência. Para isso, é preciso que alguém tenha coletado e estudado exemplares da espécie antes. Por isso os pesquisadores defendem que o método complementa, e não substitui, o trabalho tradicional e as coleções dos museus. Veja por que tantas espécies ainda não têm nome em Quantas espécies existem no planeta e quantas já conhecemos?.
Ver também: Perda de biodiversidade aquática e Diversidade genética.
Fontes #
- Agência FAPESP. A megadiversidade de peixes da Amazônia em uma gota d’água, sobre estudo de Santana e outros publicado na Scientific Reports. Out. 2021.
