serviços ecossistêmicos são os benefícios que as pessoas recebem da natureza. A água que chega aos rios, o solo fértil, a polinização das lavouras, o peixe, a sombra de uma floresta e até o prazer de uma trilha são exemplos. Quase sempre esses benefícios chegam de graça e sem que ninguém perceba, e por isso só costumam ser notados quando começam a faltar.
De onde vem a ideia #
A expressão ganhou força com a Avaliação Ecossistêmica do Milênio, um grande estudo coordenado pelas Nações Unidas e publicado em 2005, com a participação de mais de mil cientistas. Ela organizou os serviços em quatro tipos e mostrou que a maior parte deles estava em declínio no mundo. Essa classificação é usada até hoje, inclusive pela lei brasileira.
Os quatro tipos #
1. Serviços de provisão #
São os bens que a natureza fornece diretamente:
- alimentos, como peixes, frutos e castanhas;
- água doce;
- madeira e fibras;
- plantas medicinais e substâncias usadas em remédios.
2. Serviços de regulação #
São os processos que mantêm o ambiente estável:
- clima: as florestas guardam carbono e ajudam a formar chuvas. Veja Regulação do clima.
- água: a vegetação segura a chuva no solo e a libera aos poucos, o que reduz enchentes e mantém os rios com água na seca;
- polinização: abelhas, morcegos, aves e outros animais levam o pólen de flor em flor;
- controle de pragas: aves, morcegos e insetos predadores comem insetos que atacam as lavouras;
- proteção do litoral: manguezais e recifes amortecem ondas e ressacas.
3. Serviços culturais #
São os benefícios que não são materiais: lazer, turismo, educação, inspiração para a arte, valor espiritual e identidade. Para muitos povos indígenas e comunidades tradicionais, rios e florestas fazem parte da própria cultura.
4. Serviços de suporte #
São os processos de base, que tornam possíveis todos os outros:
- formação do solo;
- ciclagem de nutrientes, feita sobretudo pelos decompositores. Veja Ciclo de nutrientes.
- produção primária, ou seja, a fotossíntese, que transforma a luz do sol em alimento para toda a cadeia.
O que diz a lei brasileira #
A Lei 14.119, de 13 de janeiro de 2021, criou a Política Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais. Ela define serviços ecossistêmicos como os benefícios que os ecossistemas geram para a sociedade e usa os mesmos quatro tipos: provisão, suporte, regulação e culturais.
A mesma lei separa dois termos que costumam ser confundidos:
- serviços ecossistêmicos: o que a natureza faz. Por exemplo, a floresta que protege uma nascente.
- Serviços ambientais: o que as pessoas fazem para manter ou recuperar esses benefícios. Por exemplo, o produtor rural que cerca e replanta a mata em volta da nascente.
É o segundo que pode ser pago, no chamado pagamento por serviços ambientais. Veja O que são serviços ambientais?
Um exemplo brasileiro: quanto vale a polinização #
A polinização é um dos serviços mais estudados, porque o seu efeito aparece direto na colheita.
- No mundo: segundo a avaliação do IPBES de 2016, cerca de 75% dos tipos de cultivo alimentar dependem, ao menos em parte, da polinização por animais. A produção ligada diretamente a ela valia entre US$ 235 bilhões e US$ 577 bilhões por ano.
- No Brasil: um relatório da Plataforma Brasileira de Biodiversidade e serviços ecossistêmicos (BPBES) e da Rede Brasileira de Interações Planta-Polinizador (REBIPP), divulgado em 2019, analisou os 191 cultivos usados para produzir alimentos no país. Desses, 114, cerca de 60%, são visitados por polinizadores. O valor desse serviço foi estimado em R$ 43 bilhões em 2018, e a soja respondia por cerca de 60% desse total.
O dado da soja surpreende, porque a soja se poliniza sozinha. A explicação é que, segundo pesquisadores da Embrapa Soja, vários estudos mostram que a produtividade aumenta quando as abelhas visitam as flores. Como a lavoura é enorme, mesmo um ganho pequeno por planta vira muito dinheiro. Veja Polinização.
Por que esses serviços estão em risco #
Como a natureza não cobra pelos seus serviços, eles costumam ficar fora das contas de quem desmata, polui ou drena um banhado. O prejuízo só aparece depois, numa enchente, numa seca, na queda da pesca ou na lavoura que produz menos.
As principais causas da perda são as mesmas do desequilíbrio ecológico: mudança no uso da terra e do mar, exploração direta, mudanças climáticas, poluição e espécies invasoras. Os efeitos estão em Perda de serviços ecossistêmicos.
Como os serviços são protegidos #
- Áreas protegidas e reservas mantêm os ecossistemas que geram os serviços.
- Pagamento por serviços ambientais remunera quem conserva ou recupera a vegetação, como prevê a Lei 14.119.
- Restauração de matas ciliares e de áreas degradadas devolve parte dos serviços perdidos.
- Agricultura que conserva polinizadores, com faixas de vegetação nativa e uso cuidadoso de agrotóxicos.
Resumo: principais perguntas e respostas #
São os benefícios que as pessoas recebem da natureza, como água, alimento, polinização, regulação do clima, solo fértil e lazer.
Provisão (bens como água e alimento), regulação (clima, água, polinização), culturais (lazer, educação, valor espiritual) e suporte (solo, nutrientes e fotossíntese).
Pela Lei 14.119/2021, o serviço ecossistêmico é o benefício gerado pela natureza. O serviço ambiental é a ação humana que mantém ou recupera esse benefício, e é ele que pode ser pago.
O relatório da BPBES e da REBIPP estimou o valor em R$ 43 bilhões em 2018. Dos 191 cultivos usados para produzir alimentos no país, 114 são visitados por polinizadores.
Porque são gratuitos e costumam ficar fora das contas de quem desmata ou polui. A perda só aparece depois, em enchentes, secas ou colheitas menores.
Fontes #
- Brasil. Lei nº 14.119, de 13 de janeiro de 2021. Institui a Política Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais. Câmara dos Deputados.
- Millennium Ecosystem Assessment. Ecosystems and human well-being: synthesis. Island Press, 2005. Repositório do PNUMA.
- IPBES. Press release: pollinators vital to our food supply under threat. Fev. 2016.
- Jornal da USP. Agricultura brasileira é dependente de polinizadores ameaçados de extinção. 7 fev. 2019. Sobre o relatório da BPBES e da REBIPP.
- Barateiro, J. V. G. R. P.; Carvalho, S. M.; Gazzoni, D. L.; Santos, A. dos. Impacto da polinização por abelhas na produtividade da soja: um estudo de manejo integrado no Brasil. Resumo, X Congresso Brasileiro de Soja, Embrapa Soja, 2025.
