Ética Ambiental é a parte da filosofia que pergunta se os seres humanos têm deveres morais com a natureza e, se têm, quais são. A pergunta central é se a natureza tem valor intrínseco, ou seja, valor por si mesma, ou só valor instrumental, pelo que serve às pessoas. As correntes do campo respondem de formas diferentes.
Como o campo nasceu #
Segundo a Stanford Encyclopedia of Philosophy, a Ética Ambiental virou disciplina acadêmica nos anos 1970, quase ao mesmo tempo nos Estados Unidos, na Austrália e na Noruega, num clima de crise ambiental alimentado por livros como Primavera Silenciosa, de Rachel Carson, e Os Limites do Crescimento (1972) (Lo, Environmental Ethics, revisão de 2021). Três textos marcaram o começo:
- Lynn White (1967): o historiador argumentou que a tradição judaico-cristã, ao afirmar a superioridade humana e apresentar a natureza como criada para uso humano, estimulou a exploração da natureza.
- Richard Routley (1973): propôs o argumento do “último homem” (ver o quadro abaixo).
- Arne Næss (1973): o filósofo norueguês separou a ecologia “rasa”, preocupada com poluição e esgotamento de recursos, da ecologia “profunda”, para a qual todos os seres vivos têm valor próprio.
Você sabia?
O argumento do “último homem”, de Richard Routley (1973), imagina que, depois de uma catástrofe, o último ser humano vivo resolve destruir todas as plantas e animais que restam. Do ponto de vista centrado no ser humano, ninguém seria prejudicado. Mesmo assim, quase todos acham que ele faria algo errado. Para Routley, isso mostra que a natureza tem valor por si mesma (Stanford Encyclopedia of Philosophy).
As três grandes perspectivas e suas críticas #
| Perspectiva | O que tem valor moral | Quem defende | Crítica que recebe |
|---|---|---|---|
| Antropocentrismo | só os seres humanos; a natureza importa pelo que faz por eles | os antropocentristas “esclarecidos”, para quem razões humanas bastam para uma boa política ambiental | Peter Singer chama de “especismo” privilegiar a espécie humana, como o sexismo privilegia um sexo |
| Biocentrismo | cada ser vivo, que tem um “bem próprio” | Paul Taylor (1981 e 1986): todos os seres vivos têm igual valor intrínseco; a ecologia profunda de Næss fala em “igualitarismo biosférico” | Næss nunca explicou com clareza como bactérias ou cupins teriam interesses moralmente relevantes |
| Ecocentrismo | os conjuntos: espécies, ecossistemas, a “comunidade biótica” | Aldo Leopold (1949): “uma coisa é certa quando tende a preservar a integridade, a estabilidade e a beleza da comunidade biótica” | Tom Regan (1983) chamou de “fascismo ambiental” sacrificar indivíduos, inclusive humanos, pelo bem do todo |
Há ainda a crítica do historiador indiano Ramachandra Guha, para quem parte da ecologia profunda é elitista, uma visão de países ricos imposta aos pobres. Todas as posições estão na mesma entrada da Stanford Encyclopedia of Philosophy.
E a lei brasileira? #
A Constituição diz que “todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado” e impõe ao poder público e à coletividade “o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações” (art. 225). O mesmo artigo proíbe as práticas que “submetam os animais a crueldade” (§ 1º, VII). O texto parte dos direitos das pessoas, mas protege também os animais.
Termos vizinhos #
- Bioética: a ética da vida e da saúde (link).
- Bioética ambiental: a bioética aplicada ao meio ambiente (link).
- Justiça ambiental: a divisão justa dos danos ambientais entre as pessoas (link).
- Consciência ambiental: a percepção das pessoas sobre os problemas ambientais (link).
Resumo: principais perguntas e respostas #
É a parte da filosofia que pergunta se os seres humanos têm deveres morais com a natureza e quais são. A questão central é se a natureza tem valor por si mesma ou só pelo que serve às pessoas.
As três grandes são o antropocentrismo (só os humanos têm valor moral direto), o biocentrismo (cada ser vivo tem valor) e o ecocentrismo (os ecossistemas e as espécies têm valor como conjunto).
O americano Aldo Leopold, no livro A Sand County Almanac (1949): “uma coisa é certa quando tende a preservar a integridade, a estabilidade e a beleza da comunidade biótica”.
É a proposta do filósofo norueguês Arne Næss (1973): todos os seres vivos têm valor próprio, e não só pelo que servem aos humanos.
Peter Singer critica o antropocentrismo como “especismo”; Tom Regan acusou o ecocentrismo de “fascismo ambiental” por sacrificar indivíduos pelo todo; Ramachandra Guha viu elitismo em parte da ecologia profunda.
Fontes #
- Lo, N. Y. S. Environmental Ethics. Stanford Encyclopedia of Philosophy, 2002, revisão de 3 dez. 2021.
- Brasil. Constituição Federal, art. 225.
