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Atualizado em: 31/10/2026
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A mandioca (Manihot esculenta), também chamada de aipim ou macaxeira conforme a região, é uma planta de raiz grossa e rica em amido domesticada pelos povos indígenas da Amazônia. Da raiz saem a farinha, o beiju, a tapioca, o polvilho e o tucupi. Uma reportagem de 1999 sobre o estudo que achou a origem da planta já a descrevia como alimento de cerca de 600 milhões de pessoas nos países pobres (ScienceDaily, 3/6/1999).
Onde e quando foi domesticada
Em 1999, os biólogos Kenneth Olsen e Barbara Schaal, da Universidade Washington em St. Louis, publicaram nos Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) um estudo genético que localizou a origem da mandioca na borda sul da bacia amazônica, no Brasil, a partir de uma subespécie silvestre, Manihot esculenta subsp. flabellifolia (ScienceDaily). Antes, uma hipótese apontava o Planalto Central brasileiro.
Uma revisão de 2010 sobre a origem das plantas cultivadas da Amazônia, liderada por Charles Clement, reúne os estudos seguintes: a mandioca teria sido domesticada uma única vez, em populações silvestres do norte de Mato Grosso, de Rondônia, do Acre e de áreas vizinhas da Bolívia. A domesticação começou antes de 8 mil anos atrás: a data mais antiga de mandioca cultivada vem de vales do litoral do Peru, o que mostra que a planta já tinha viajado para longe da origem (Clement et al., Diversity, 2010).
Mandioca brava e mandioca mansa
Toda mandioca tem linamarina, um composto que, quando a raiz é machucada, entra em contato com uma enzima da própria planta e libera cianeto, um veneno. A Embrapa explica que a mandioca é chamada de brava ou mansa conforme a quantidade desses compostos na raiz, e que as duas têm linamarina (Embrapa Amazônia Oriental, 2016, cap. 13). A revisão de 2010 usa um corte de 50 partes por milhão na raiz fresca: abaixo disso, a variedade é chamada de doce, ou mansa; acima, amarga, ou brava (Clement et al., 2010).
Por que alguém plantaria uma raiz venenosa? A mesma revisão registra que as variedades bravas eram mais comuns perto dos grandes rios e do litoral, onde viviam populações maiores e fixas, e as mansas nas cabeceiras dos rios e nas bordas da floresta. Uma hipótese é que o veneno protege a roça de pragas, uma vantagem para quem planta muito no mesmo lugar, e um custo para grupos pequenos que mudam de lugar. Os autores dizem que não está claro se isso explica tudo (mesma fonte).
Como o processamento tira o veneno
O conhecimento indígena de preparo é o que tornou a mandioca brava um alimento. O capítulo da Embrapa sobre os derivados descreve o papel de cada etapa (Embrapa, 2016):
- Ralar: rompe a raiz e põe a linamarina em contato com a enzima, o que libera o cianeto.
- Prensar: tira cerca de 60% da água. O líquido, a manipueira, é aproveitado para o tucupi e para a fécula.
- Secar e torrar: na farinha, é quando o cianeto sai em maior quantidade, como gás. Por isso a Embrapa recomenda exaustores, máscaras e óculos nas casas de farinha.
- Cozinhar: no tucupi, o cozimento elimina o cianeto da manipueira. Na maniva, as folhas da mandioca, o cozimento longo serve para eliminar todo o cianeto: em observações de campo, durou de 56 a 84 horas, menos do que a tradição de sete dias.
Com essas práticas, diz a Embrapa, o teor de cianeto cai a níveis seguros.
Os Waurá e a diversidade da mandioca
A mandioca costuma ser plantada por estaca, um pedaço do caule, que gera um clone da planta-mãe. Plantar só clones empobrece a variedade genética. Um estudo publicado na Science em março de 2025, com 573 genomas de mandioca e coordenado por Fábio Freitas (Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia), mostrou como os Waurá, da aldeia Ulupuwene, no Alto Xingu (MT), resolvem isso (Pesquisa FAPESP, junho de 2025):
- eles plantam estacas de variedades diferentes bem perto umas das outras, em montes de terra chamados “casa de Kukurro”, ligados a uma narrativa e a rituais;
- as plantas florescem e cruzam entre si; as sementes ficam dormentes no solo até o fogo de limpeza da roça, no ano seguinte, fazê-las germinar;
- os Waurá observam as plantas que nascem de semente, escolhem as que têm características novas, dão nome a elas e as juntam à coleção da aldeia. Em Ulupuwene, os pesquisadores identificaram 19 variedades de mandioca-brava.
“Os Waurá são bastante seletivos”, disse Freitas. O pesquisador Robin Allaby (Universidade de Warwick), coautor, afirmou que “os indígenas conhecem muito mais sobre a lavoura da mandioca do que nós”. A ecóloga Carolina Levis (UFSC), que comentou o estudo, lembrou que as mulheres “costumam ser as principais responsáveis por cuidar das roças” (mesma fonte).
Por que é tema de sustentabilidade
A mandioca liga três assuntos. A diversidade genética mantida nas roças indígenas é uma reserva para o futuro da própria planta, que pode precisar de variedades resistentes a pragas e ao clima. Os parentes silvestres também estão em risco: três espécies do gênero Manihot constam da lista nacional da flora ameaçada de 2026 (Portaria GM/MMA nº 1.783/2026). E a reportagem de 1999 já registrava que a região onde cresce a mandioca silvestre estava sendo convertida em grandes lavouras de soja (ScienceDaily). Hoje a mandioca é também uma lavoura importante da agricultura familiar; o Pará é o maior produtor, com 22,8% do volume nacional em 2025, segundo a Produção Agrícola Municipal do IBGE citada por O Liberal (O Liberal, 18/10/2026).
Termos vizinhos
- Etnobotânica (link).
- Comunidades indígenas do Brasil (link).
- agricultura familiar (link).
Resumo: principais perguntas e respostas
No sudoeste da Amazônia, entre o norte de Mato Grosso, Rondônia, o Acre e a Bolívia, a partir de uma subespécie silvestre, segundo estudos genéticos.
Há mais de 8 mil anos, segundo a data arqueológica mais antiga, do litoral do Peru.
A quantidade de compostos que liberam cianeto na raiz: a brava tem mais e só pode ser comida depois de processada.
Ralando, prensando, torrando ou cozinhando, etapas que liberam o cianeto, segundo a Embrapa.
Os Waurá deixam variedades diferentes cruzarem e escolhem as plantas que nascem de semente, segundo estudo publicado na Science em 2025.
Fontes
- Clement, C. R. et al. Origin and Domestication of Native Amazonian Crops. Diversity, v. 2, n. 1, p. 72-106, 2010.
- Abreu, L. F.; Mattietto, R. A. Procedimentos de fabricação dos derivados de mandioca. In: Cultura da mandioca. Embrapa Amazônia Oriental, 2016, cap. 13.
- Pesquisa FAPESP. Técnica de plantio de povo do Alto Xingu aumenta a diversidade da mandioca. Edição 352, junho de 2025. Sobre Kinsler, L. et al., “Historic manioc genomes illuminate maintenance of diversity under long-lived clonal cultivation”, Science, v. 387, n. 6738, 7/3/2025.
- ScienceDaily (Universidade Washington em St. Louis). Where the wild ones are: origins of staple crop found. 3/6/1999. Sobre Olsen, K. M.; Schaal, B. A., PNAS, 1999.
- Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Portaria GM/MMA nº 1.783, de 26 de outubro de 2026. Diário Oficial da União.
- O Liberal. Pará lidera produção de mandioca, mas ainda tem espaço para desenvolver a cadeia. 18/10/2026.
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