123 Ecos Redação
Nossa equipe de redação é formada por especialistas pós graduados em diversas áreas e são apaixonados pelo tema Sustentabilidade
Atualizado em: 31/10/2026
Nesta página
A ideia de substituir ou reduzir a carne na alimentação é discutida por dois motivos principais: o efeito da pecuária sobre o clima e o efeito de certos tipos de carne sobre a saúde. Há números medidos para os dois, e há debate sobre o que fazer com eles.
O clima: o que mede a FAO
A FAO publicou duas estimativas para as emissões de gases de efeito estufa da pecuária:
- 2013: 7,1 bilhões de toneladas de CO2 equivalente por ano, ou 14,5% das emissões causadas pelos seres humanos; a carne bovina respondia por 41% e o leite de vaca por 20% das emissões do setor (FAO, Tackling climate change through livestock, 2013). O dado é do período de referência de 2005 (Twine, Sustainability, 2021).
- 2023: cerca de 6,2 bilhões de toneladas, ou cerca de 12%, com dado de 2015 (FAO, 8/12/2023).
Você sabia?
Como ler este número. Os 14,5% e os 12% não mostram que a pecuária passou a emitir menos. São estimativas de anos diferentes (2005 e 2015), e o comunicado da FAO de 2023 não compara os dois números. Há quem calcule mais: Richard Twine, num artigo de 2021, defendeu que 16,5% deveria ser o número mínimo (Twine, 2021). Ao ler um número sobre a pecuária, veja de que ano é o dado e quem fez a conta.
No relatório de 2023, a FAO lista caminhos para reduzir as emissões: melhorar a saúde dos animais e as práticas de reprodução, aumentar a eficiência da produção, reduzir perdas e desperdício, e reduzir o consumo de alimentos de origem animal, cujo efeito, diz a FAO, depende do que for posto no lugar (mesma fonte).
A saúde: o que diz a IARC
Em 2015, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), da OMS, classificou (IARC, perguntas e respostas sobre a Monografia 114, 2015):
- a carne processada (transformada por salga, cura, fermentação, defumação ou outros processos) no grupo 1, “cancerígeno para humanos”;
- a carne vermelha (de boi, porco, carneiro, cabra e outros mamíferos) no grupo 2A, “provavelmente cancerígeno”.
A IARC explica que esses grupos “descrevem a força da prova científica” de que algo causa câncer, e não o tamanho do risco. A carne processada está no mesmo grupo do tabaco, mas isso não quer dizer que seja tão perigosa quanto ele. Pela estimativa da IARC, cada porção de 50 gramas de carne processada comida por dia aumenta o risco de câncer colorretal em cerca de 18% (mesma fonte, tradução do inglês).
A recomendação oficial no Brasil
O Guia Alimentar para a População Brasileira não manda cortar a carne. Ele recomenda fazer de alimentos in natura ou minimamente processados a base da alimentação e diz que “a opção por vários tipos de alimentos de origem vegetal e pelo limitado consumo de alimentos de origem animal” leva a um sistema alimentar “menos estressante para o ambiente” (Ministério da Saúde, Guia Alimentar, 2014, p. 31).
O debate: a EAT-Lancet e os críticos
- A proposta: a Comissão EAT-Lancet, grupo de pesquisadores ligado à revista The Lancet, publicou em 2019 uma “dieta da saúde planetária”. Na nova edição, de outubro de 2025, a Comissão estima que mudar a alimentação poderia evitar cerca de 15 milhões de mortes prematuras por ano e que menos de 1% das pessoas comem hoje como ela propõe (Food Navigator, 6/10/2025). Ela recomenda reduzir pela metade o consumo de carne vermelha e de açúcar adicionado, sobretudo nos países mais ricos (Hospital Clínic de Barcelona, 19/11/2025).
- A crítica: Ty Beal, da Aliança Global para a Melhoria da Nutrição (GAIN), com Flaminia Ortenzi e Jessica Fanzo, da Universidade Johns Hopkins, calculou em 2023, na revista The Lancet Planetary Health, que a dieta de 2019 deixaria mulheres em idade fértil com só 55% do ferro recomendado e com falta também de cálcio, zinco e vitamina B12. Os autores propõem aumentar a parte de alimentos de origem animal de 14% para 27% das calorias (Food Navigator, 31/3/2023). A fonte não traz declaração de financiamento do estudo.
Termos vizinhos
- Os impactos ambientais da pecuária (link).
- Alimentos plant-based (link).
- Carne de laboratório (link).
- Sustentabilidade alimentar (link).
Resumo: principais perguntas e respostas
Pela FAO (2023), cerca de 12% das emissões humanas de gases de efeito estufa, com dado de 2015. A estimativa anterior da FAO, de 2013, era de 14,5%, com dado de 2005; os dois números não medem uma queda.
A IARC a classificou em 2015 no grupo 1, “cancerígeno para humanos”. O grupo mede a força da prova, não o tamanho do risco. Cada 50 gramas por dia aumentam o risco de câncer colorretal em cerca de 18%, pela IARC.
A IARC a classificou no grupo 2A, “provavelmente cancerígeno”. O Guia Alimentar não manda cortá-la, e sim fazer dos alimentos in natura a base, com consumo limitado de alimentos de origem animal.
É a “dieta da saúde planetária” proposta pela Comissão EAT-Lancet em 2019 e atualizada em 2025, que recomenda reduzir pela metade o consumo de carne vermelha nos países mais ricos. Críticos, como Ty Beal e colegas (2023), calcularam que ela deixa faltar ferro, zinco, cálcio e vitamina B12.
Fontes
- FAO. Tackling climate change through livestock, resumo. 2013.
- FAO. New FAO report maps pathways towards lower livestock emissions. 8/12/2023.
- Twine, R. Emissions from Animal Agriculture: 16.5% Is the New Minimum Figure. Sustainability, v. 13, n. 11, 2021.
- IARC. Q&A on the carcinogenicity of the consumption of red meat and processed meat. 2015.
- Ministério da Saúde. Guia Alimentar para a População Brasileira, 2ª edição. 2014.
- Food Navigator. Eat-Lancet’s ideal diet: why 99% of the world isn’t following it. 6/10/2025.
- Hospital Clínic de Barcelona. Improving diets could prevent 15 million deaths per year. 19/11/2025.
- Food Navigator. EAT-Lancet diet: increased intake of animal source foods recommended by researchers to fill micronutrient gap. 31/3/2023.
Impresso de https://123ecos.com.br/docs/substituir-ou-reduzir-a-carne/ · Atualizado em 31/10/2026 · 123 Ecos

