123 Ecos Redação
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Atualizado em: 31/10/2026
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Nanofertilizantes são fertilizantes que usam partículas ou revestimentos com medidas entre 1 e 100 nanômetros. Há dois usos principais. Num, um revestimento em escala nano envolve o adubo comum e faz o nutriente sair devagar, o que se chama liberação controlada. No outro, o nutriente vai num líquido com partículas em escala nano para ser aplicado nas folhas. O que é a escala nano está em nanotecnologia, e o adubo comum, em fertilizantes químicos.
Uma pesquisa brasileira: ureia com capa de nanoargila
Pesquisadores da Embrapa, da Unaerp, da Unesp e da USP fizeram uma capa para a ureia com um plástico biodegradável feito de óleo de mamona e uma argila em escala nano, a montmorilonita (Forbes Brasil, 14/5/2026). O que foi medido:
- Em laboratório, na água: a ureia comum soltou mais de 85% do nitrogênio em quatro horas. Com a capa só de plástico, saíram cerca de 70% em nove dias. Com 5% de nanoargila na capa, saíram só 22% no mesmo período.
- Em estufa: em 135 dias e quatro cortes de capim-piatã, os adubos com capa foram melhores que a ureia comum, e em alguns momentos a planta absorveu o dobro de nitrogênio.
São resultados de laboratório e de estufa. O grupo procurava, na data da reportagem, empresas para levar a tecnologia ao mercado; não é um produto à venda.
Um caso medido em campo: a ureia líquida nano na Índia
Na Índia, a maior fabricante de fertilizantes do país passou a vender uma ureia líquida em escala nano para aplicação nas folhas, dizendo que uma garrafa com 20 gramas de nitrogênio substitui um saco de 45 quilos de ureia comum, que tem 21 quilos de nitrogênio. Num artigo de opinião publicado na revista Plant and Soil, dois pesquisadores da Universidade de Copenhague sustentam que isso exigiria um aproveitamento do nitrogênio mais de mil vezes maior que o da ureia comum, e que o produto não tem efeito comprovado pela ciência (Frank e Husted, Plant and Soil, 2024). É a análise dos dois sobre o que a fabricante afirma, e não um estudo com dados novos. Na consulta de 31/10/2026, não achei nota de correção, de preocupação ou retratação do artigo.
A Universidade Agrícola do Punjab testou o produto em campo, em 2020-21 e 2021-22, e comparou o resultado com a adubação de nitrogênio comum (Down To Earth, 3/1/2024):
- a colheita de trigo caiu 21,6%, e a de arroz, 13%;
- o nitrogênio no grão caiu 17% no arroz e 11,5% no trigo, o que quer dizer menos proteína.
Os pesquisadores concluíram que o produto não podia ser recomendado para arroz e trigo. O estudo saiu na revista mensal da própria universidade.
Em dezembro de 2024, seis cientistas de solo e de planta publicaram na revista ACS Nano uma carta com o título “Artigos de nanotecnologia com foco agrícola são publicados com frequência demais com um entendimento superficial da ciência básica de planta e solo” (Husted e outros, ACS Nano, 2024).
O que se sabe medido
- O que o fabricante informa: o rótulo e a propaganda dizem a dose e o ganho prometido. No caso indiano, a promessa era trocar 21 quilos de nitrogênio por 20 gramas (Frank e Husted, Plant and Soil, 2024).
- O que foi medido por quem usa: na consulta de 31/10/2026, não achei levantamento publicado por produtores brasileiros sobre nanofertilizantes na lavoura.
- O que foi medido por pesquisa de fora: no Brasil, a pesquisa da Embrapa com nanoargila mediu laboratório e estufa, não lavoura (Forbes Brasil, 14/5/2026). Em campo, o teste de dois anos da Universidade Agrícola do Punjab mediu queda de colheita (Down To Earth, 3/1/2024).
O que a promessa não garante
Resultado de laboratório não é resultado de lavoura, e “nano” no rótulo não quer dizer mais eficiência. Quando um nanofertilizante não entrega o nutriente prometido, a planta fica com menos nitrogênio, a colheita cai e o grão sai com menos proteína, como no teste da Índia. Antes de trocar o adubo comum, vale pedir ao vendedor o número do registro e o resultado de campo, com o lugar e o ano.
Registro no Brasil
Pela Lei 6.894/1980, quem produz ou vende fertilizante tem de registrar o produto no Ministério da Agricultura; a lei teve trechos mudados pela lei dos bioinsumos, de 2024 (Câmara dos Deputados, texto atualizado). Na consulta de 31/10/2026, não achei regra própria do ministério para fertilizantes em escala nano, nem lista oficial de nanofertilizantes registrados. Os adubos e o seu controle estão em controle no uso de fertilizantes químicos.
Você sabia?
No teste da Universidade Agrícola do Punjab, na Índia, a ureia líquida nano custou dez vezes mais que a ureia comum em grão (Down To Earth, 3/1/2024). O dado vale para esse produto, nesse teste, e não para todo nanofertilizante.
Termos vizinhos
Resumo: principais perguntas e respostas
São fertilizantes que usam partículas ou revestimentos com medidas entre 1 e 100 nanômetros, para soltar o nutriente devagar ou para aplicação nas folhas.
Depende do produto. Uma pesquisa da Embrapa teve bons resultados em laboratório e estufa. Um teste de campo de dois anos na Índia com uma ureia líquida nano mediu queda de colheita.
No caso indiano, dois pesquisadores sustentam, num artigo de opinião, que a promessa exigiria um aproveitamento do nitrogênio mais de mil vezes maior que o da ureia comum. No teste de campo da Índia, a colheita caiu.
Todo fertilizante vendido precisa de registro no Ministério da Agricultura, pela Lei 6.894/1980. Na consulta de 31/10/2026, não achei regra própria para os em escala nano.
O número do registro no rótulo e o resultado de campo, com o lugar e o ano.
Fontes
- Forbes Brasil. Nanotecnologia abre nova frente para fertilizantes no Brasil. 14/5/2026.
- Frank, M.; Husted, S. Artigo de opinião (Opinion Paper) sobre a ureia líquida nano. Plant and Soil, v. 496, p. 257-267, 2024 (publicado on-line em 2023).
- Down To Earth. Dip in yield, low protein content: PAU field experiment finds several problems with nano urea. 3/1/2024.
- Husted, S. e outros. Nanotechnology Papers with an Agricultural Focus Are Too Frequently Published with a Superficial Understanding of Basic Plant and Soil Science. ACS Nano, v. 18, n. 50, 17/12/2024.
- Brasil. Lei nº 6.894, de 16 de dezembro de 1980, texto atualizado. Consultado em 31/10/2026.
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