Devian Zutter
Produtor de vídeos e ambientalista com larga experiência internacional em produções voltadas para proteção ambiental
Atualizado em: 04/11/2026
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A Praia Central de Balneário Camboriú, no litoral norte de Santa Catarina, é uma praia arenosa cercada de edifícios altos. Em 2021, a faixa de areia foi alargada artificialmente, de cerca de 25 metros para uma média de 70 metros. Depois da obra, a praia continuou mudando, e a sombra que os prédios projetam sobre a areia à tarde não mudou.
| Ficha | Dados |
|---|---|
| Estado e município | Santa Catarina; Balneário Camboriú |
| Tipo de praia | praia arenosa urbana, com prédios junto à orla |
| Extensão da obra | cerca de 5,8 km, segundo a Jan De Nul, empresa que fez a obra |
| Largura da faixa de areia | cerca de 25 m antes de 2021; média de 70 m depois da obra (monitoramento, 2024) |
| Área protegida | nenhuma na Praia Central (o CNUC registra no município um parque natural municipal e duas RPPN, fora da orla) |
| Monitoramento da água | Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA), boletim semanal, 10 pontos na Praia Central |
| Principais pressões | erosão no setor sul, ocupação vertical da orla, matéria orgânica trazida pelos rios |
O ambiente
Uma praia arenosa é um ambiente vivo: a areia abriga pequenos animais que filtram a água e reciclam matéria orgânica (veja Praias arenosas). Na Praia Central, o monitoramento da obra usou dois grupos desses animais como sinal de saúde da praia: a meiofauna (animais de menos de um milímetro, que vivem entre os grãos) e o corrupto (Callichirus major), um crustáceo que cava galerias na areia. O relatório registra que o excesso de matéria orgânica trazida pelos rios, o turismo e as próprias obras afetam a meiofauna (monitoramento ambiental da obra, 2024).
O alargamento da faixa de areia
O que foi feito. Alargar uma praia (também chamado de “engorda”) é bombear areia do fundo do mar para a faixa seca. Segundo a Jan De Nul, empresa que fez a obra, foram cerca de 2,2 milhões de metros cúbicos de areia, trazidos de uma jazida no mar licenciada para isso, entre 22 de agosto e 31 de outubro de 2021, ao longo de 5,8 km (Dredgers). A obra foi concluída em dezembro de 2021, segundo o relatório do monitoramento.
O que aconteceu depois. Uma praia alargada não fica como foi entregue: o mar redistribui a areia até achar um novo equilíbrio. O relatório de fevereiro de 2024 registra que os ciclones extratropicais de maio de 2022 e de 2023 abriram escarpas de erosão (degraus na areia). O setor da Barra Sul, na ponta sul da praia, perdeu areia e “ainda está em processo de equilíbrio”, e o relatório diz que esse setor exige monitoramento e obras de contenção. No restante da praia, a situação era em geral estável, com ganho de areia (monitoramento ambiental da obra, 2024). Em 2023, um trecho de 200 metros perto do molhe da Barra Sul tinha recuado cerca de 70 metros. O engenheiro responsável disse que o recuo era previsto e que a areia se acomoda nos trechos vizinhos e embaixo da água (TNH1, 8/6/2023).
As vantagens e os limites desse tipo de obra estão em Proteção costeira.
A sombra dos prédios
A orla da Praia Central é ocupada por edifícios altos, alguns com mais de 100 metros. Uma simulação apresentada em 2004 num congresso da Universidade Federal de Santa Catarina calculou a sombra desses prédios na areia, das 12h às 18h. Na alta temporada, a partir das 14h os prédios já bloqueavam o sol em vários pontos, e no trecho central a sombra cobria toda a largura da faixa de areia a partir das 17h. Os prédios da orla mudaram muito desde 2004, e o estudo não foi refeito com a cidade de hoje. Na época, os autores atribuíram a situação ao Plano Diretor então em vigor, que deixava livre o número de andares e limitava só o aproveitamento do terreno (De Domenico, Souza e Rech, 2004).
O estudo de 2004 também simulou o alargamento que já era discutido, e concluiu que o aterro daria, em alguns trechos, apenas alguns minutos a mais de sol. A sombra depende da altura dos prédios e da posição do sol, não da largura da areia. A exceção é o trecho sul, que recebe sol praticamente o dia todo porque fica voltado para o norte.
A qualidade da água
O IMA mede toda semana a bactéria Escherichia coli, que indica a presença de esgoto, em 10 pontos da Praia Central. Pelo critério da Resolução Conama 274/2000, o IMA classifica um ponto como “próprio” quando, em pelo menos 80% das amostras das últimas cinco semanas, há no máximo 800 E. coli por 100 mililitros de água. No relatório nº 50, de 23 de outubro de 2026 (coletas de 19 a 21 de outubro), os 10 pontos da Praia Central estavam classificados como “próprios”. No relatório nº 6, de 19 de dezembro de 2025, o ponto 01, no Pontal Norte, estava classificado como “impróprio” (IMA, relatório nº 50; IMA, relatório nº 6). A situação muda de semana para semana, e a consulta atualizada fica no painel de balneabilidade do IMA.
Resumo: principais perguntas e respostas
A faixa de areia passou de cerca de 25 metros para uma média de 70 metros, numa obra concluída em dezembro de 2021, segundo o relatório do monitoramento ambiental.
De uma jazida no fundo do mar, licenciada para isso. Segundo a Jan De Nul, empresa que fez a obra, foram cerca de 2,2 milhões de metros cúbicos.
Sim, em parte. Os ciclones de 2022 e 2023 abriram escarpas de erosão, e o setor da Barra Sul perdeu areia. O restante da praia estava, em geral, estável em fevereiro de 2024.
Não. Uma simulação de 2004 concluiu que o aterro daria só alguns minutos a mais de sol em alguns trechos, porque a sombra depende da altura dos prédios.
O Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA), toda semana, em 10 pontos, pelo critério da Resolução Conama 274/2000.
Fontes
- Principais resultados do monitoramento ambiental da obra de recuperação da faixa de areia da Praia Central de Balneário Camboriú. Arquivo no site da Prefeitura de Balneário Camboriú, fevereiro de 2024.
- Dredgers. Beach of Balneário Camboriú (Brazil) enlarged (notícia sobre a obra da Jan De Nul). Consultado em 2 de novembro de 2026.
- TNH1. Trecho de praia alargada de Balneário Camboriú “encolhe” 70 metros, 8 de junho de 2023.
- DE DOMENICO, F. C.; SOUZA, C. E.; RECH, J. V. Simulação das sombras dos edifícios da orla, na areia da praia central, em relação ao engordamento proposto, na cidade de Balneário Camboriú – SC. COBRAC 2004, UFSC.
- Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina. Relatório de balneabilidade nº 50, de 23/10/2026 e nº 6, de 19/12/2025.
- Conselho Nacional do Meio Ambiente. Resolução Conama 274, de 29 de novembro de 2000.
- Ministério do Meio Ambiente. Cadastro Nacional de Unidades de Conservação, dados abertos, edição de julho de 2026.
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