Devian Zutter
Produtor de vídeos e ambientalista com larga experiência internacional em produções voltadas para proteção ambiental
Atualizado em: 04/11/2026
Nesta página
A praia de Boa Viagem fica no Recife, capital de Pernambuco, e tem cerca de 7 quilômetros de extensão. É uma praia urbana, com uma avenida e prédios junto à areia, protegida em parte por linhas de arenito paralelas à costa. Também é o trecho do litoral pernambucano com mais incidentes com tubarões registrados desde 1992.
| Ficha | Dados |
|---|---|
| Estado e município | Pernambuco; Recife, bairro de Boa Viagem |
| Extensão | cerca de 7 km (Silva, 2002, citado por Oliveira e colaboradores, 2015) |
| Ambientes | praia arenosa, arenitos de praia emersos e submersos, recifes na plataforma rasa |
| Área protegida | o CNUC registra no Recife a ARIE Orla Marítima, municipal (Lei 16.176/1996); o texto com os limites não foi localizado |
| Monitoramento da água | Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH), boletim semanal |
| Incidentes com tubarões | 25 em Boa Viagem, de 84 em Pernambuco, de 1992 a 2 de junho de 2026 (Cemit, pelo Diario de Pernambuco) |
| Principais pressões | ocupação da orla, erosão no setor sul |
O ambiente
Na frente de Boa Viagem há alinhamentos de arenito, rocha formada por areia cimentada por carbonato de cálcio, alguns acima da água e outros submersos, paralelos à costa. Eles protegem a faixa de areia da força das ondas e, na maré baixa, formam piscinas naturais. Mais ao largo, os recifes da plataforma rasa também reduzem a energia das ondulações que chegam à praia (Oliveira e colaboradores, 2015). Veja também Praias arenosas.
O que pressiona esta praia
A cidade sobre as dunas. A ocupação de Boa Viagem foi feita junto à linha da costa ou sobre a própria praia, com a destruição das dunas frontais. A avenida beira-mar, construída entre o fim dos anos 1970 e o começo dos anos 1980, impermeabilizou o terreno e imobilizou as dunas que restavam, segundo um estudo da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) (Oliveira e colaboradores, 2015).
Erosão no setor sul. O mesmo estudo comparou a linha da costa em várias datas. Entre 1975 e 1984 a praia avançou em quase toda a área estudada, até cerca de 83 metros. Entre 1984 e 2010 houve recuo no setor sul, que os autores associam à erosão da vizinha praia de Piedade e às obras de contenção ao sul de Boa Viagem. O texto registra muros, enrocamentos (barreiras de pedras) ampliados para o norte em 2004 e trechos com reposição de areia. Os autores concluem que obras de grande porte podem acentuar a erosão em alguns trechos. Em março de 2024, a Prefeitura do Recife abriu licitação de R$ 4,19 milhões para estudos e projetos destinados a “estabilizar o avanço erosivo” em cerca de 9,3 km de orla, de Boa Viagem a Brasília Teimosa (Movimento Econômico, 13/3/2024).
Os tubarões: o que se sabe
Os números. O Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarão (Cemit), criado pelo governo de Pernambuco em 2004, registra os casos desde 1992. Até 2 de junho de 2026, eram 84 incidentes no estado, 70 deles no Grande Recife. Boa Viagem tinha 25, o maior número entre as praias, seguida de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes, com 24 (Diario de Pernambuco, 2/6/2026). O trecho considerado de risco tem 33 km, da praia do Farol, em Olinda, à praia do Paiva, no Cabo de Santo Agostinho (Folha de Pernambuco, 1/6/2026).
O fato que surpreende. Antes de 1992 não havia registro de série de incidentes no Recife. O pesquisador Fábio Hazin, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e então presidente do Cemit, e colegas da Universidade da Flórida estudaram o surto de 1992 a 2006. Nos casos em que a espécie pôde ser identificada pela mordida, quase todos foram do tubarão-cabeça-chata, que usa os estuários da região para se reproduzir. As hipóteses levantadas pelos pesquisadores incluem a construção do porto de Suape, a cerca de 40 km ao sul, que desmatou manguezais e alterou estuários; a poluição dos rios; e os peixes descartados pela pesca de arrasto, que atraem tubarões (Pesquisa FAPESP, jan. 2009).
O que não está provado. Em março de 2025 (decisão assinada em 20 de março e publicada no Diário do MPF em 27 de março), o Ministério Público Federal arquivou um inquérito sobre a relação entre o porto de Suape e os incidentes, segundo o Diario de Pernambuco. A procuradora concluiu que “não há comprovação de que a construção do porto tenha sido a causa direta ou única do problema”, mas registrou “estreita relação” entre a operação do porto e a mudança de comportamento da fauna marinha local. A decisão cita 10 incidentes entre 2013 e 2024, 2 deles fatais (Diario de Pernambuco, março de 2025).
A qualidade da água
A CPRH mede toda semana a qualidade da água em trechos do litoral de Pernambuco, pelo critério da Resolução Conama 274/2000. No boletim divulgado em 29 de outubro de 2026, os dois pontos de Boa Viagem (em frente aos números 2.840 e 6.958 da Avenida Boa Viagem) estavam classificados como “próprios”, e o ponto vizinho do Pina, como “impróprio”. O boletim cobria 27 trechos do litoral do estado (Diario de Pernambuco, 30/10/2026). A situação muda de semana para semana.
Proteção
O Cadastro Nacional de Unidades de Conservação (CNUC) registra no Recife a Área de Relevante Interesse Ecológico (ARIE) Orla Marítima, municipal, criada pela Lei 16.176, de 9 de abril de 1996, e regulamentada em 2008, 2014 e 2022, com 463 hectares. O texto com os limites da ARIE não foi localizado, e por isso esta ficha não afirma se a faixa de areia de Boa Viagem está dentro dela. Veja o que é uma ARIE.
Resumo: principais perguntas e respostas
No Recife, capital de Pernambuco. Tem cerca de 7 km de extensão.
São arenitos: areia cimentada por carbonato de cálcio. Ficam paralelos à costa, protegem a praia das ondas e formam piscinas naturais na maré baixa.
25, de 84 em Pernambuco, de 1992 a 2 de junho de 2026, segundo o Cemit.
Não está provado. Pesquisadores levantaram essa hipótese, entre outras. Em 2025, o MPF arquivou um inquérito dizendo que não há comprovação de causa direta ou única, mas registrou relação entre a operação do porto e a mudança de comportamento da fauna.
Sim, no setor sul. Um estudo da UFPE registrou recuo da linha da costa nesse trecho entre 1984 e 2010.
Fontes
- OLIVEIRA, T. R. S.; CORREIA, K. V.; ARRUDA, G. B.; MELO, M. C. S. S.; BARCELLOS, R. L. Estudo comparativo do fenômeno da erosão marinha e seus impactos na Praia de Boa Viagem, Recife – PE. Estudos Geológicos, v. 25, n. 1, p. 119-136, 2015.
- Pesquisa FAPESP. Perigo no mar, edição 155, janeiro de 2009 (sobre HAZIN, F. H. V. e colaboradores, Bulletin of Marine Science, v. 82, n. 2, 2008).
- Diario de Pernambuco. Veja as praias com mais ataques de tubarão em Pernambuco, 2 de junho de 2026 (dados do Cemit).
- Folha de Pernambuco. Piedade soma 24 incidentes com tubarão desde 1992, 1º de junho de 2026.
- Diario de Pernambuco. MPF arquiva inquérito sobre relação entre porto de Suape e tubarões, março de 2025.
- Movimento Econômico. Prefeitura do Recife lança licitação para combater avanço do mar, 13 de março de 2024.
- Diario de Pernambuco. Seis trechos de praias em Pernambuco estão impróprios para banho, aponta CPRH, 30 de outubro de 2026.
- Conselho Nacional do Meio Ambiente. Resolução Conama 274, de 29 de novembro de 2000.
- Ministério do Meio Ambiente. Cadastro Nacional de Unidades de Conservação, dados abertos, edição de julho de 2026.
Procure outro assunto na Ecopédia
Impresso de https://123ecos.com.br/docs/praia-de-boa-viagem-arenitos-erosao-e-tubaroes-pe/ · Atualizado em 04/11/2026 · 123 Ecos

