123 Ecos Redação
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Atualizado em: 31/10/2026
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A terra preta de índio é um tipo de solo escuro e fértil encontrado na Amazônia, nos lugares onde viveram povos indígenas. A Embrapa a descreve como um solo formado por resíduos orgânicos e inorgânicos deixados por esses povos: cinzas, carvão, restos de animais e de plantas. Em comparação com o solo vizinho, ela tem mais carbono, fósforo e cálcio e uma matéria orgânica de melhor qualidade (Embrapa, 26/4/2016). Nos artigos científicos em inglês, ela aparece como Amazonian dark earth.
Como reconhecer
- Cor: preta ou marrom-escura, por causa do carvão e da matéria orgânica.
- Cacos de cerâmica: é comum achar fragmentos de vasos misturados à terra, sinal de que ali houve aldeia (mesma fonte).
- Fertilidade: no sítio do Caldeirão, em Iranduba (AM), os níveis de fósforo e cálcio da terra preta passavam de dez vezes os dos solos vizinhos (Pesquisa FAPESP, sobre artigo de 2021).
Uma estimativa citada pela Embrapa calcula que a terra preta ocupa cerca de 3,2% da Amazônia, ou 154 mil km² (Embrapa, 2016). A área é difícil de medir, porque as manchas são pequenas e espalhadas.
Por que ela continua fértil
O carvão é o segredo mais estudado. Ele é carbono que não apodrece com facilidade e por isso fica no solo por séculos, segurando nutrientes que a chuva levaria embora. É essa a razão de a terra preta continuar boa para plantar centenas de anos depois de a aldeia ter sido abandonada. Segundo o estudo de 2023, cada aldeia antiga estudada guarda vários milhares de toneladas de carbono no solo, e alguns sítios têm tanto carbono no chão quanto a floresta acima dele (Schmidt et al., Science Advances, 2023; MIT News, 20/9/2023).
Como se formou: o debate
Ninguém discute que a terra preta está ligada a lugares onde viveram pessoas. A dúvida é se ela foi feita de propósito, se se formou sem querer com o lixo da aldeia, ou se a natureza começou o trabalho antes.
A hipótese da origem natural (2021). Um grupo de 14 pesquisadores do Brasil, dos Estados Unidos e do Reino Unido, liderado por Lucas Silva (Universidade de Oregon), publicou na Nature Communications, em janeiro de 2021, que a terra preta do sítio do Caldeirão teria começado a se formar entre 8 mil e 4 mil anos atrás, com sedimentos trazidos por rios, antes de haver aldeias ali. A ocupação humana teria aproveitado um solo que já era fértil (Pesquisa FAPESP).
As respostas. O arqueólogo Eduardo Góes Neves (MAE-USP) considerou as conclusões erradas: o sítio fica cerca de 30 metros acima do nível do rio, e uma deposição assim exigiria uma enchente enorme. Umberto Lombardo, que coordenou uma das respostas assinadas por dezenas de pesquisadores, disse que a data usada no artigo veio de uma camada de solo abaixo da terra preta, e não das próprias camadas escuras. Helena Lima (Museu Paraense Emílio Goeldi) lembrou os cacos de cerâmica espalhados por toda a camada. Wenceslau Teixeira (Embrapa Solos), que participou do início do trabalho, não assinou o artigo por discordar das conclusões. Segundo Góes Neves, a terra preta raramente tem mais de 2.500 anos (mesma fonte).
O estudo com os Kuikuro (2023). Em setembro de 2023, uma equipe do MIT, da Universidade da Flórida e de instituições brasileiras, liderada por Morgan Schmidt, publicou na Science Advances um estudo feito no Território Indígena Kuikuro, no Alto Xingu (MT). Os Kuikuro fazem montes com restos de comida e outros resíduos, que se decompõem em terra escura, e espalham cinzas, carvão e matéria orgânica nas roças e ao pé das árvores. Eles chamam essa terra de eegepe. Os autores compararam a terra preta antiga com a que os Kuikuro fazem hoje e acharam semelhanças de lugar e de composição. Para eles, isso sugere que os antigos povos da Amazônia manejavam o solo de propósito para deixá-lo mais fértil (Schmidt et al., Science Advances, 2023; MIT News, 20/9/2023). O estudo não prova como cada sítio antigo se formou.
Por que interessa hoje
A terra preta é estudada como exemplo de solo que fica mais fértil com o uso, o contrário do que costuma acontecer com a agricultura nos trópicos (veja degradação do solo). Duas linhas de pesquisa saem dela:
- Biocarvão: carvão feito de restos vegetais queimados com pouco ar, que a Embrapa descreve como “uma tentativa de replicar os solos antrópicos”. Wenceslau Teixeira (Embrapa Solos) afirmou que “existe tecnologia baseada na TPI para transformar solos pobres arenosos em férteis” (Embrapa, 2016).
- Carbono no solo: como o carvão fica no solo por séculos, a terra preta mostra uma forma de guardar carbono por muito tempo. Samuel Goldberg, coautor do estudo de 2023, disse que é “exatamente o que queremos para os esforços de mitigação da mudança do clima” (MIT News).
A terra preta também é prova de que a Amazônia antiga tinha populações grandes e assentadas, assunto ligado aos povos indígenas do Brasil e à etnobotânica.
Termos vizinhos
- Biodiversidade do solo (link).
- Regeneração do solo (link).
- Manejo do solo (link).
Resumo: principais perguntas e respostas
É um solo escuro e fértil da Amazônia, ligado a antigas aldeias indígenas, rico em carvão, cinzas e restos orgânicos.
Porque tem mais carbono, fósforo e cálcio que o solo vizinho, e o carvão segura os nutrientes por séculos.
Arqueólogos ouvidos pela Pesquisa FAPESP dizem que ela está ligada à ocupação humana. Um estudo de 2023 viu os Kuikuro, no Alto Xingu, produzirem terra escura de propósito, o que sugere que os antigos faziam o mesmo. Um artigo de 2021 propôs uma origem natural, contestada por outros pesquisadores.
Em geral, de centenas a 2.500 anos, segundo arqueólogos ouvidos pela Pesquisa FAPESP.
É carvão feito de restos vegetais, usado na pesquisa para imitar a terra preta e melhorar solos pobres.
Fontes
- Embrapa. Terra manejada por civilizações antigas é fonte de nova geração de fertilizantes organominerais. 26/4/2016.
- Pesquisa FAPESP. Uma origem natural das terras pretas de índio? Sobre Silva, L. et al., “A new hypothesis for the origin of Amazonian Dark Earths”, Nature Communications, 4/1/2021, e as respostas.
- Schmidt, M. J. et al. Intentional creation of carbon-rich dark earth soils in the Amazon. Science Advances, v. 9, n. 38, 2023.
- MIT News. Ancient Amazonians intentionally created fertile “dark earth”. 20/9/2023. Sobre Schmidt, M. et al., “Intentional creation of carbon-rich dark earth soils in the Amazon”, Science Advances, 2023.
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