Governança Global e Políticas Internacionais

Parecer consultivo da Corte Internacional de Justiça sobre o clima: o que diz

Nível de leitura: Universitário

123 Ecos Redação

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Atualizado em: 03/11/2026

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Em poucas palavras

Em 23 de julho de 2025, a Corte Internacional de Justiça respondeu, por unanimidade, a duas perguntas da Assembleia Geral da ONU sobre as obrigações dos países diante da mudança do clima. Ela disse que os países têm deveres pelos tratados do clima, pelo direito costumeiro e pelos direitos humanos, e que descumpri-los pode gerar responsabilidade. O parecer não é uma sentença contra um país.

Parecer da Corte Internacional de Justiça sobre o clima: balança com um globo aquecido e pessoas de vários países
Um país pode ser cobrado pelo clima de todos? Imagem gerada por IA.
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O parecer da Corte Internacional de Justiça sobre o clima é o parecer consultivo com que o principal tribunal da ONU respondeu, em 23 de julho de 2025, a duas perguntas da Assembleia Geral: quais são as obrigações dos países para proteger o sistema climático e quais são as consequências jurídicas quando um país as descumpre. O caso tem o nome oficial “Obrigações dos Estados em relação à mudança do clima” (Corte Internacional de Justiça, caso 187).

Quadro
TribunalCorte Internacional de Justiça (CIJ), em Haia (Países Baixos)
Pedidoresolução 77/276 da Assembleia Geral da ONU, de 29/3/2023, aprovada por consenso
Manifestações escritas91, o maior número já apresentado em um parecer consultivo da Corte; o Brasil está entre os países que se manifestaram
Audiências2 a 13/12/2024, no Palácio da Paz
Parecer23/7/2025

Fontes do quadro: CIJ, caso 187, CIJ, apresentação das manifestações escritas e ONU, UNifeed, 29/3/2023.

Parecer consultivo não é sentença

A Corte Internacional de Justiça faz duas coisas diferentes. Nos casos contenciosos, ela julga uma disputa entre países que aceitaram a sua jurisdição, e a decisão obriga as partes. Nos pareceres consultivos, ela responde a uma pergunta jurídica feita por um órgão da ONU, como a Assembleia Geral. O parecer não condena nenhum país e não tem uma parte vencida. O seu peso vem de ser a interpretação do tribunal mais alto da ONU sobre regras que já obrigam os países.

Como o pedido chegou à Corte

A Assembleia Geral aprovou por consenso, em 29 de março de 2023, a resolução 77/276, preparada e liderada por Vanuatu, país insular do Pacífico. O primeiro-ministro de Vanuatu na época, Alatoi Ishmael Kalsakau, chamou-a de “resolução de Vanuatu” (ONU, UNifeed). As duas perguntas foram (parecer, § 1, em resumo):

  1. quais são as obrigações dos países, pelo direito internacional, para proteger o sistema climático das emissões de gases de efeito estufa, para os países e para as gerações presentes e futuras;
  2. quais são as consequências jurídicas quando um país, por ação ou omissão, causa dano significativo ao sistema climático, em relação aos países afetados, em especial os pequenos países insulares, e às pessoas afetadas.

O que a Corte respondeu

A Corte respondeu por unanimidade. Os pontos centrais, pelos parágrafos do parecer (resumo do parecer feito pela ELAW; o texto original da Corte não abriu na consulta):

PontoO que a Corte disseParágrafos
Tratados do climaa Convenção-Quadro do Clima, o Protocolo de Kyoto e o Acordo de Paris criam obrigações; a de fazer inventários de emissões é obrigatória§§ 201-202
Meta de 1,5 °Co consenso científico e as decisões posteriores dos países fazem de 1,5 °C a meta principal de temperatura do Acordo de Paris§ 224
Metas nacionaisos países têm de apresentar as suas NDCs com regularidade, e cada nova meta deve ser mais ambiciosa que a anterior§§ 234 e seguintes
Direito costumeiroalém dos tratados, os países têm o dever de prevenir dano significativo ao ambiente e ao clima, com devida diligência§§ 272 e seguintes
Cooperaçãoos países devem cooperar em adaptação e em perdas e danos§§ 260 e seguintes
Combustíveis fósseisnão agir sobre a produção, o consumo, as licenças de exploração ou os subsídios aos combustíveis fósseis pode ser um ato ilícito internacional atribuível ao país§§ 427-428
Consequênciaso país que descumpre deve parar, garantir que não vai repetir e reparar integralmente os países prejudicados§§ 407 e seguintes
Direitos humanosos países devem respeitar e garantir os direitos humanos tomando as medidas necessárias para proteger o sistema climático§ 457, 3, E

Fonte da tabela: parecer consultivo de 23/7/2025, pelos parágrafos indicados no resumo da ELAW.

“Devida diligência” quer dizer usar todos os meios razoáveis ao seu alcance, inclusive regular empresas e pessoas no seu território. Por isso a Corte diz que a falta de regras sobre as emissões de atores privados também pode contar contra o país (§§ 427-428).

O que muda e o que não muda

  • Não muda: nenhum país foi condenado, e o parecer não cria um tratado novo. As metas de cada país continuam sendo escritas por ele mesmo.
  • Muda: países, tribunais nacionais e outros tribunais internacionais passaram a ter uma interpretação da Corte sobre o que as regras já existentes exigem. Os países que se consideram prejudicados podem citar o parecer em negociações, como as das COPs, e em processos.

Um engano comum

“A Corte Internacional de Justiça condenou os países ricos a pagar pelo clima.” Não. O parecer não julgou nenhum país e não fixou valor. Ele disse, em termos gerais, que descumprir as obrigações sobre o clima pode gerar responsabilidade, com dever de parar, não repetir e reparar.

Resumo: principais perguntas e respostas

O que é o parecer da Corte Internacional de Justiça sobre o clima?

É a resposta da Corte, de 23 de julho de 2025, às perguntas da Assembleia Geral da ONU sobre as obrigações dos países diante da mudança do clima e as consequências de descumpri-las.

O parecer consultivo da Corte é obrigatório?

O parecer em si não é uma sentença e não condena nenhum país, mas interpreta obrigações que já existem em tratados e no direito costumeiro.

O que a Corte disse sobre a meta de 1,5 °C?

Que 1,5 °C passou a ser a meta principal de temperatura do Acordo de Paris, pelo consenso científico e pelas decisões posteriores dos países.

Quem pediu o parecer da Corte sobre o clima?

A Assembleia Geral da ONU, pela resolução 77/276, aprovada por consenso em 29 de março de 2023 com a liderança de Vanuatu.

Fontes

O tema completo, reunido na vitrine ONU e Acordos Globais →

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