123 Ecos Redação
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Atualizado em: 02/11/2026
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Alguns anfíbios brasileiros não são vistos há décadas, mas ainda não foram declarados extintos. Na lista nacional de espécies ameaçadas de 2026, eles aparecem com a marca CR (PE): Criticamente em Perigo, possivelmente extinta. Pela nossa conta no Anexo I da Portaria MMA nº 1.704, de 16 de junho de 2026, 15 anfíbios têm essa marca. Os outros grupos e as categorias da lista estão em Anfíbios: o que são, os grupos e as espécies do Brasil.
O que quer dizer “possivelmente extinta”
A Portaria só traz a sigla: “CR (PE) = Criticamente em Perigo (Possivelmente Extinta)”. A explicação está no Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção, do ICMBio (2018). Segundo ele:
- uma espécie só é considerada Extinta quando “não restam quaisquer dúvidas de que o último indivíduo tenha morrido”, depois de buscas exaustivas em toda a área onde ela vivia;
- quando “há indícios de extinção da espécie, mas ainda não houve esforço de busca suficiente para afirmar que o último indivíduo tenha morrido, por precaução” ela fica como criticamente em perigo, com a indicação de possivelmente extinta.
Em outras palavras, a marca PE é uma forma de cautela. A espécie continua na lista das ameaçadas, e não na das extintas, porque ainda pode haver algum grupo escondido. Por isso, o certo é dizer “possivelmente extinta”, e não “extinta”.
Os 15 anfíbios possivelmente extintos
Todos são sapos, rãs ou pererecas (ordem Anura).
| Nº na lista | Espécie | Família | Onde vivia |
|---|---|---|---|
| 2 | Anomaloglossus tepequem | Aromobatidae | Encostas da serra do Tepequém, acima de 500 m, em Roraima |
| 6 | Ischnocnema epipeda | Brachycephalidae | Arredores de Santa Teresa (ES) |
| 19 | Ceratophrys ornata | Ceratophryidae | Litoral sul do Rio Grande do Sul; também Argentina e Uruguai |
| 22 | Cycloramphus stejnegeri | Cycloramphidae | Serra dos Órgãos (RJ) |
| 23 | Thoropa lutzi | Cycloramphidae | Estado do Rio de Janeiro, de 200 a 800 m |
| 24 | Thoropa petropolitana | Cycloramphidae | Serra dos Órgãos (RJ), acima de 800 m |
| 34 | Ololygon peixotoi | Hylidae | Ilha da Queimada Grande, litoral de São Paulo (ICMBio, 2018) |
| 39 | Crossodactylus boulengeri | Hylodidae | Faixa da Serra do Mar entre Angra dos Reis (RJ) e São Paulo |
| 41 | Crossodactylus dispar | Hylodidae | Norte da Serra do Mar, em São Paulo e no Rio de Janeiro; também Misiones (Argentina) |
| 42 | Crossodactylus franciscanus | Hylodidae | São Roque de Minas, no Parque Nacional da Serra da Canastra, e Passos (MG) |
| 43 | Hylodes glaber | Hylodidae | Região de Itatiaia (RJ) |
| 49 | Paratelmatobius lutzii | Leptodactylidae | Brejo da Lapa, no Alto do Itatiaia, acima de 2.000 m (ICMBio, 2018) |
| 55 | Phrynomedusa marginata | Phyllomedusidae | Santa Teresa (ES) |
| 56 | Phrynomedusa vanzolinii | Phyllomedusidae | Estação Biológica de Boracéia (SP) e Teresópolis (RJ) |
| 59 | Holoaden bradei | Strabomantidae | Um ponto no Parque Nacional do Itatiaia, acima de 2.000 m (ICMBio, 2018) |
Os números, os nomes e as famílias vêm da Portaria. Os lugares vêm do catálogo Amphibian Species of the World, do Museu Americano de História Natural, consultado em 2 de novembro de 2026, salvo onde a tabela indica o ICMBio. Em alguns casos, as fontes dão áreas um pouco diferentes; as fichas explicam.
Pela nossa conta na tabela, três dessas espécies viviam na região de Itatiaia e duas em Santa Teresa, no Espírito Santo. A maioria vivia em serras da Mata Atlântica. As exceções são Anomaloglossus tepequem, de uma serra de Roraima; Ololygon peixotoi, de uma ilha; Crossodactylus franciscanus, do Cerrado, segundo o ASW; e Ceratophrys ornata, do litoral do extremo sul. Esta última ainda vive na Argentina e no Uruguai, segundo o ASW, mas a lista nacional avalia só a situação no Brasil.
Por que tantos sumiram
Nos anos 1980, várias espécies de anfíbios desapareceram de serras da Mata Atlântica, inclusive de lugares com a mata preservada. Segundo a Pesquisa FAPESP (março de 2017):
- o cenário foi “principalmente o trecho da Mata Atlântica entre o Paraná e o Espírito Santo”, e incluiu “áreas onde a floresta está intacta”, como a Estação Biológica de Boraceia e o Parque Nacional do Itatiaia;
- um estudo de Tamilie Carvalho, Luís Felipe Toledo (Unicamp) e Guilherme Becker (Unesp), publicado em 2017, examinou a boca de cerca de 33 mil girinos guardados em museus. A análise mostrou coincidência entre a presença do fungo Batrachochytrium dendrobatidis, o quitrídio, e a maior parte das extinções e dos declínios registrados, e o estudo aponta o fungo como causa;
- para Toledo, “ao menos 65 espécies foram afetadas, levando a 49 extinções locais e ao desaparecimento de 15 espécies”. Essa é a conta do pesquisador para os anos 1980; não é a mesma lista dos 15 possivelmente extintos de 2026.
O quitrídio ataca a pele dos anfíbios. O que ele é e como age está em Patógenos: curiosidades e impactos ambientais. Na mesma reportagem, Becker levanta a hipótese de que as mudanças climáticas tenham ajudado o fungo. Antes do estudo, as suspeitas sobre os sumiços em Itatiaia giravam em torno da atividade humana, como uma estrada ou a poluição.
O quitrídio é uma explicação geral, não a resposta para cada espécie. Para várias das 15, as avaliações do ICMBio dizem que as causas do sumiço são desconhecidas. As fichas trazem o que as fontes dizem de cada uma.
Você sabia?
Espécies dadas como perdidas às vezes reaparecem. A perereca Phrynomedusa appendiculata, que não está na lista de 2026, não era vista havia 51 anos quando pesquisadores encontraram uma população se reproduzindo em florestas do planalto paulista, segundo o artigo de Moraes e colegas na revista Zootaxa (2022).
Possivelmente extinta x extinta
A lista de 2026 tem um anexo separado só para as espécies extintas. Nele há dois anfíbios: Boana cymbalum e Phrynomedusa fimbriata, marcados “EX” (Extinta). Pela definição do ICMBio, isso quer dizer que não restam dúvidas de que o último indivíduo morreu. Quais são as espécies brasileiras declaradas extintas está em Quais espécies brasileiras já foram declaradas extintas?.
| Possivelmente extinta, CR (PE) | Extinta, EX | |
|---|---|---|
| Onde fica na Portaria | Anexo I, das ameaçadas | Anexo II, das extintas |
| O que se sabe | Há indícios de que sumiu | Não há dúvida de que o último morreu |
| anfíbios em 2026 | 15 | 2 |
Resumo: principais perguntas e respostas
Quer dizer que há indícios de que a espécie sumiu, mas ainda não houve busca suficiente para afirmar que o último indivíduo morreu. Por precaução, ela fica como criticamente em perigo, segundo o ICMBio.
Pela nossa conta na lista nacional de 2026 (Portaria MMA nº 1.704), são 15. Outros 2 anfíbios estão no anexo das espécies extintas.
O fungo quitrídio é apontado como causa de muitos sumiços na Mata Atlântica nos anos 1980, segundo um estudo de 2017. Para várias espécies, porém, a causa ainda é desconhecida.
Fontes
- Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Portaria MMA nº 1.704, de 16 de junho de 2026. Anexo I (anfíbios, nº 1 a 59, e legenda das categorias) e Anexo II.
- ICMBio. Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção, volume I. Brasília, 2018. Categorias de risco.
- ICMBio. Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção, volume V, Anfíbios. Brasília, 2018. Fichas de Holoaden bradei, Paratelmatobius lutzii e Ololygon peixotoi.
- Frost, D. R. Amphibian Species of the World. Museu Americano de História Natural. Consultado em 2 nov. 2026.
- Pesquisa FAPESP. Epidemiologia retroativa. Maria Guimarães, ed. 253, mar. 2017.
- Moraes, L. J. C. L. et al. Rediscovery of the rare Phrynomedusa appendiculata. Zootaxa, 5087(4): 522–540, 2022.
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