Anfíbios

Cobras-cegas (cecílias): o que são, como vivem e quantas há no Brasil

Nível de leitura: Ensino Médio

123 Ecos Redação

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Atualizado em: 02/11/2026

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Em poucas palavras

A cobra-cega, ou cecília, não é cobra: é um anfíbio sem patas, parente dos sapos e das salamandras, da ordem Gymnophiona. A maioria vive enterrada, em túneis na terra úmida, e come pequenos animais do solo. O Brasil tem 40 espécies, segundo a lista da Sociedade Brasileira de Herpetologia de 2026. Nenhuma está na lista nacional de espécies ameaçadas de 2026.

Cobra-cega (cecília) Siphonops paulensis, cinza com anéis claros, sobre uma folha
Cobra-cega Siphonops paulensis sobre uma folha em Pacoti (CE), em março de 2023. Foto: Rafael Duarte, CC0, via iNaturalist. Imagem recortada e redimensionada.
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A cobra-cega, também chamada de cecília, parece uma cobra ou uma minhoca grande, mas é um anfíbio. Ela forma uma das três ordens de anfíbios, a dos Gymnophiona, ao lado dos sapos, rãs e pererecas (Anura) e das salamandras (Caudata). A maioria vive enterrada, em túneis no solo úmido. Por viverem num ambiente de difícil acesso, as cecílias são “um dos grupos de vertebrados menos conhecidos pela ciência”, segundo a bióloga Tamí Mott, da Universidade Federal de Alagoas, ouvida pela Pesquisa FAPESP em 2024.

Os três grupos de anfíbios e as espécies do Brasil estão em Anfíbios: o que são, os grupos e as espécies do Brasil.

O que é uma cobra-cega

A cobra-cega não tem patas e tem o corpo alongado. Segundo uma reportagem da Pesquisa FAPESP (maio de 2006), elas “parecem cobras ou minhocões, mas não erra quem as vir como sapos alongados sem patas”.

A mesma reportagem descreve dois traços do grupo:

  • olhos simples, sob a pele, que “só distinguem o claro e o escuro”;
  • tentáculos sensitivos, pequenas saliências na cabeça com que elas tateiam o caminho dentro da terra.

Como os outros anfíbios, a cecília depende da pele úmida, “por onde faz boa parte da respiração”, segundo a Pesquisa FAPESP de março de 2024. O grupo é típico de regiões tropicais.

Cobra-cega, cobra e cobra-de-duas-cabeças

Três bichos sem patas costumam ser confundidos:

BichoGrupoClasse
Cobra-cega (cecília)GymnophionaAnfíbio
Cobra (serpente)SquamataRéptil
Cobra-de-duas-cabeças (anfisbena)SquamataRéptil

A cobra-de-duas-cabeças é um réptil: o Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção, do ICMBio (2018), põe as anfisbênias no mesmo grupo dos lagartos e das serpentes (Squamata) e dá a várias delas o nome popular de “cobra-de-duas-cabeças”. A cecília, ao contrário, está entre os anfíbios.

Quantas espécies existem

O número de espécies conhecidas cresce à medida que os pesquisadores descrevem espécies novas. Por isso, cada número vem com a fonte e o ano:

OndeEspéciesFonte
Brasil40Lista da Sociedade Brasileira de Herpetologia, abril de 2026, segundo o Conexão Planeta
Brasil39Pesquisa FAPESP, março de 2024
Brasil36Livro Vermelho, ICMBio, 2018 (vol. V)
Mundo222Pesquisa FAPESP, março de 2024
Mundo214Agência FAPESP, julho de 2020
Mundocerca de 180Pesquisa FAPESP, maio de 2006

Em 2024, segundo a Pesquisa FAPESP, cerca de 20% das cecílias conhecidas no mundo viviam no Brasil.

As famílias do Brasil

Na lista de espécies do Livro Vermelho (ICMBio, 2018, vol. I), as cobras-cegas do Brasil estão em quatro famílias:

FamíliaExemplos na lista de 2018
CaeciliidaeCaecilia tentaculata, C. gracilis
RhinatrematidaeRhinatrema bivittatum
SiphonopidaeSiphonops annulatus, S. paulensis
TyphlonectidaeTyphlonectes compressicauda, várias espécies de Chthonerpeton

A lista é daquele ano, e alguns nomes mudaram depois. Em outubro de 2026, por exemplo, um estudo que descreveu uma espécie nova do Rio de Janeiro, Siphonops maria, passou as espécies do gênero Luetkenotyphlus para Siphonops, segundo a Agência FAPESP.

Como vivem

A maioria das cecílias vive debaixo da terra, em canais e câmaras que cava no solo. Segundo a Pesquisa FAPESP (2006), elas também podem ser encontradas em outros lugares escuros, como tocos de árvore ou montes de cascas de cacau que apodrecem na mata, “em meio a insetos e minhocas, seus alimentos prediletos”.

Nem todas vivem em terra. A Typhlonectes compressicauda é aquática, segundo a Agência FAPESP (2020).

Dentes com glândulas de veneno

Em 2020, pesquisadores do Instituto Butantan, coordenados pelo biólogo Carlos Jared, descreveram glândulas na base dos dentes de quatro espécies de cecílias, segundo a Agência FAPESP. O estudo saiu na revista iScience. As glândulas se formam do mesmo tecido que dá origem às glândulas de veneno das serpentes e liberam uma secreção no ferimento quando a cecília morde a presa. A secreção também lubrifica a presa e facilita a engolir.

A notícia trata do efeito sobre as presas, como minhocas, larvas de insetos e pequenos vertebrados. Ela não trata de risco para pessoas.

O cuidado com os filhotes

Em algumas espécies de cecílias que põem ovos, a mãe fica com os filhotes no ninho, debaixo da terra, e eles se alimentam da camada de fora da pele dela, que nessa fase fica cheia de gordura. Esse comportamento se chama dermatofagia (“comer pele”). Ele foi descrito:

  • em 2006, na Boulengerula taitanus, do Quênia, por Kupfer e colegas, na revista Nature, segundo a Pesquisa FAPESP;
  • em 2008, na Siphonops annulatus, da América do Sul, por Wilkinson e colegas, na revista Biology Letters.

Em 2024, a equipe do Butantan mostrou que os filhotes de Siphonops annulatus também tomam um líquido parecido com leite, que sai da abertura da cloaca da mãe, segundo a Pesquisa FAPESP. O estudo saiu na revista Science.

Esses achados valem para as espécies estudadas. Os autores de 2008 sugerem, como hipótese, que a dermatofagia pode ser comum entre as cecílias que põem ovos, mas isso ainda não foi mostrado para o grupo todo. Há também cecílias que não põem ovos: os filhotes se desenvolvem dentro do corpo da mãe, segundo a Pesquisa FAPESP (2006).

Você sabia?

A primeira pista do “leite” das cecílias veio de uma filmagem. Em 2007, uma equipe da BBC gravou no Instituto Butantan filhotes de Siphonops annulatus se juntando em volta da cloaca da mãe. A explicação só saiu 17 anos depois, em 2024, segundo a Pesquisa FAPESP.

As cobras-cegas na lista de espécies ameaçadas

Pela nossa conta no Anexo I da Portaria MMA nº 1.704, de 16 de junho de 2026, nenhuma cobra-cega está na lista nacional de espécies ameaçadas.

Isso não quer dizer que todas estejam bem. Na avaliação publicada no Livro Vermelho de 2018 (vol. V), o ICMBio avaliou 32 espécies de cobras-cegas: 18 ficaram como Menos Preocupante e 14 como Dados Insuficientes, a categoria usada quando não há informação bastante para saber se a espécie está ou não ameaçada. Como elas vivem enterradas, são difíceis de encontrar e de estudar.

Resumo: principais perguntas e respostas

Cobra-cega é cobra?

Não. A cobra-cega, ou cecília, é um anfíbio sem patas, da ordem Gymnophiona, parente dos sapos e das salamandras. A cobra-de-duas-cabeças (anfisbena) é outro bicho: um réptil.

Quantas espécies de cobra-cega existem no Brasil?

São 40, segundo a lista da Sociedade Brasileira de Herpetologia de 2026. Em 2024, a Pesquisa FAPESP falava em 222 espécies conhecidas no mundo.

A cobra-cega está ameaçada de extinção?

Nenhuma espécie está na lista nacional de 2026 (Portaria MMA 1.704). Na avaliação do ICMBio publicada em 2018, 14 das 32 espécies avaliadas ficaram como Dados Insuficientes, porque se sabe pouco sobre elas.

Fontes

Impresso de https://123ecos.com.br/docs/cobras-cegas-cecilias-o-que-sao-como-vivem-e-quantas-ha-no-brasil/ · Atualizado em 02/11/2026 · 123 Ecos

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