123 Ecos Redação
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Atualizado em: 02/11/2026
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A Siphonops annulatus é uma cobra-cega, ou cecília: um anfíbio sem patas que vive enterrado. O Instituto Butantan, em São Paulo, estuda a espécie desde 1993, quando encontrou na Bahia fêmeas com a pele mais clara que o habitual, segundo a Pesquisa FAPESP (2006). Nela, os cientistas descreveram filhotes que comem a pele da mãe e, em 2024, filhotes que tomam um líquido parecido com leite.
| Ficha | Dados |
|---|---|
| Nome comum | Cecília, cobra-cega |
| Nome científico | Siphonops annulatus (Mikan, 1820) |
| Família | Siphonopidae |
| Ordem | Gymnophiona (cobras-cegas) |
| Tamanho | Pode atingir 40 cm de comprimento (Pesquisa FAPESP, 2006) |
| Onde vive | América do Sul, a leste dos Andes, incluindo a Amazônia e o leste do Brasil |
| Situação na IUCN | Não informada nesta versão |
| Situação no Brasil | Não consta na lista nacional de 2026 (Portaria MMA 1.704/2026); Menos Preocupante na avaliação do ICMBio de 2012 |
O que são as cobras-cegas, e por que não são cobras, está em Anfíbios: o que são, os grupos e as espécies do Brasil.
Como é
A Siphonops annulatus pode atingir 40 centímetros de comprimento, segundo a Pesquisa FAPESP (2006). A pele, cinza-escura, fica cinza-clara quando a fêmea está cuidando dos filhotes, segundo a mesma reportagem.
Os filhotes nascem pequenos, com cerca de 4 centímetros, sem cor na pele e com a cabeça bem mais larga que o corpo, segundo o artigo de Wilkinson e colegas na revista Biology Letters (2008). Eles crescem rápido enquanto ficam com a mãe. O mesmo estudo mediu filhotes de 7,5 a 13,6 centímetros ainda no ninho.
Onde vive
Segundo o catálogo Amphibian Species of the World (consultado em 2 de novembro de 2026), a espécie tem registros a leste dos Andes em três áreas separadas:
- no oeste da Amazônia, da Colômbia e da Venezuela até o oeste do Brasil e o norte da Bolívia;
- do leste do Pará até as Guianas;
- no leste do Brasil, do sul da Bahia a Santa Catarina, passando por Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo, e também no Paraguai e na Argentina.
O catálogo diz que essas lacunas entre as áreas podem ser falta de coleta, e não ausência da espécie.
No Pará, a espécie foi registrada de novo em 2013, depois de mais de um século sem registros no estado (o anterior era de 1876), segundo uma nota de Maciel e colegas na revista Check List.
Os animais estudados pelo Butantan foram coletados na região do cacau de Ilhéus, no sul da Bahia, onde as cobras-cegas são comuns debaixo da terra, segundo a Pesquisa FAPESP (2024). Em 2006, a revista contava que o grupo de Carlos Jared encontrou a espécie em montes de cascas de cacau apodrecendo na Mata Atlântica, entre Ilhéus e Itabuna.
O que come
A fonte que consultamos não descreve a dieta da espécie em particular. Para as cecílias em geral, a Pesquisa FAPESP (2006) cita “insetos e minhocas, seus alimentos prediletos”.
Filhotes que comem a pele da mãe
Em 2008, Wilkinson e colegas descreveram, na Siphonops annulatus, a dermatofagia (“comer pele”): os filhotes se alimentam da camada de fora da pele da mãe. Era a segunda espécie de cecília em que isso foi visto. A primeira foi a Boulengerula taitanus, do Quênia, em 2006.
Segundo o artigo:
- durante o cuidado, a pele da mãe fica mais clara, e as células da camada de fora crescem e se enchem de gordura;
- os filhotes têm dentes especiais para raspar a pele. Um filhote de 12 centímetros tinha 44 dentes em forma de colher na mandíbula, com pontinhas na ponta, enquanto o adulto tem uma só fileira de dentes simples;
- os filhotes comem todos juntos, de forma agitada, girando o corpo para arrancar pedaços de pele. A mãe fica calma. A única refeição observada do começo ao fim durou sete minutos.
Os autores acham que esse comportamento é muito antigo e pode ter mais de 100 milhões de anos, porque aparece também numa cecília africana. Eles apresentam isso como hipótese.
Um tipo de leite
Em 2024, a equipe do Butantan publicou na revista Science que os filhotes também são “amamentados” com um líquido que sai da abertura da cloaca da mãe, segundo a Pesquisa FAPESP. O primeiro autor do estudo é Pedro Mailho-Fontana.
Segundo a reportagem e o resumo do artigo:
- a equipe gravou o comportamento de 16 fêmeas por 242 horas, ao longo de seis anos;
- o líquido é feito sobretudo de gorduras e açúcares (lipídios e carboidratos) e vem de glândulas do oviduto da mãe, que crescem durante o cuidado com os filhotes;
- o cuidado dura de dois a três meses;
- os filhotes emitem um som poucos minutos antes de mamar, o que pode ser um pedido de comida.
“Não podemos chamar de glândulas mamárias, porque as origens evolutivas são muito diferentes”, disse o biólogo Carlos Jared à Pesquisa FAPESP.
Você sabia?
Em 2008, Wilkinson e colegas já tinham visto filhotes de Siphonops annulatus se juntarem em volta da cloaca da mãe e beberem um líquido que saía dali, mas não sabiam o que era. A resposta veio em 2024, com o estudo do leite.
Dentes com glândula de veneno
A equipe do Butantan também descobriu que esta espécie tem uma glândula de veneno na base dos dentes e “é capaz de inocular ao morder”, segundo a Pesquisa FAPESP (2024). As fontes consultadas tratam do efeito sobre as presas, não de risco para pessoas.
Conservação no Brasil
A Siphonops annulatus não consta na lista nacional de espécies ameaçadas, atualizada pela Portaria MMA nº 1.704, de 16 de junho de 2026. Na avaliação do ICMBio de 2012, publicada no Livro Vermelho (2018), ela ficou como Menos Preocupante.
Fontes
- Wilkinson, M.; Kupfer, A.; Marques-Porto, R.; Jeffkins, H.; Antoniazzi, M. M.; Jared, C. One hundred million years of skin feeding? Extended parental care in a Neotropical caecilian (Amphibia: Gymnophiona). Biology Letters, 4(4): 358–361, 2008.
- Mailho-Fontana, P. L.; Antoniazzi, M. M.; Coelho, G. R.; Pimenta, D. C.; Fernandes, L. P.; Kupfer, A.; Brodie Jr., E. D.; Jared, C. Milk provisioning in oviparous caecilian amphibians. Science, 383(6687): 1092–1095, 2024.
- Revista Pesquisa FAPESP. Anfíbios subterrâneos produzem leite para alimentar filhotes. Ed. 338, p. 59, mar. 2024.
- Revista Pesquisa FAPESP. A pele como alimento. Ed. 123, p. 54–55, maio 2006.
- Maciel, A. O. et al. Rediscovery of Siphonops annulatus (Mikan, 1820) in the state of Pará, Brazil, with an updated geographic distribution map, and notes on size and variation. Check List, 9(1): 106–110, 2013.
- Frost, D. R. Amphibian Species of the World: Siphonops annulatus. Consultado em 2 nov. 2026.
- ICMBio. Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção, volume I. Brasília, 2018. Lista das espécies avaliadas, nº 4401.
- Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Portaria MMA nº 1.704, de 16 de junho de 2026. Anexo I. Conferência feita pela 123 Ecos.
Impresso de https://123ecos.com.br/docs/siphonops-annulatus-a-cobra-cega-que-alimenta-os-filhotes-com-a-propria-pele/ · Atualizado em 02/11/2026 · 123 Ecos

